quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A VERDADEIRA CERTEZA DE SALVAÇÃO

Retomando o parágrafo I da Confissão de Fé, após a afirmação da existência da falsa convicção, lemos o seguinte: “...contudo, os que verdadeiramente crêem no Senhor Jesus e o amam com sinceridade, procurando andar diante dele em toda boa consciência, podem, nesta vida, certificar-se de se acharem em estado de graça, e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus, essa esperança que jamais os envergonhará.”
Esta declaração da Confissão de Fé deixa claro que, segundo as Escrituras, existe não somente uma certeza de salvação, mas, também, uma certeza verdadeira de salvação. Todavia, para tornar clara a diferença entre a falsa e a verdadeira certeza de salvação, alguns pontos precisam ser enfatizados aqui. O primeiro diz respeito à fé daquele que verdadeiramente é salvo: “verdadeiramente crêem no Senhor Jesus”; com isto, aponta-se para o fato de que os verdadeiros salvos não olham para si mesmos como merecedores da salvação; na verdade, têm eles a compreensão correta de sua incapacidade para adquirí-la, e por isso lançam-se, totalmente, confiantes em Jesus, nos benefícios conquistados por Ele, o único justo, na cruz do calvário. Assim, a verdadeira certeza de salvação pertence àqueles que depositaram toda a sua fé na obra de Jesus Cristo, não procurando em si mesmos méritos para alcançá-la.
O segundo aspecto diz respeito à disposição do coração daquele que verdadeiramente encontrou a salvação em Jesus: “O amam (a Jesus) com sinceridade”. Sproul, comentando esta disposição interior daquele que é verdadeiramente salvo, diz que:
Uma pessoa regenerada tem recebido a operação interna do Espírito Santo, através da qual a inclinação ou disposição da alma tem sido alterada. O coração regenerado possui um amor e desejo por Cristo que não é encontrado no incrédulo.

Infelizmente, com o sentimentalismo barato de nossa geração, amar passou a significar “satisfação pessoal”, e não doação por outrem, como ensina a Escritura Sagrada. Assim, amar Jesus passou a ser entendido como “cantar” músicas melosas para Ele em vez de compromisso com seu reino e sua vontade. Por isso, não vemos mudança de atitudes, de comportamentos, na suposta “geração de apaixonados” por Jesus, pois o amor que expressam não passa de satisfação pessoal expressa em suas canções. O amor que Cristo requer de nós implica em sinceridade e doação pessoal.
Quando falamos de sinceridade, falamos da intenção dos nossos corações. Cristo tem que significar tudo para nós, não parte, mas tudo; ele não divide a sua glória com qualquer outra coisa ou pessoa (Lc 14.25-33). Se buscamos a Cristo por causa de algum problema que possuímos (dinheiro, casamento, emprego, etc.), e O aceitamos por recebermos a dádiva desejada, isto nos cega para a nossa real necessidade dele. Quando amamos a Cristo sinceramente O aceitamos por estarmos conscientes de nossa culpabilidade diante de Deus, da gravidade do nosso pecado e do estado de nossa naureza diante de sua santidade, o que nos impede de nos salvarmos a nós mesmos. Assim, corremos para Cristo como a dádiva de Deus-Pai para a nossa salvação e a Ele nos entregamos por inteiro. Ele, então, passa a ser o bem maior que possuímos, e não as dádivas passageiras que possamos receber dele. Um coração sincero deseja e ama o redentor Jesus, e não as bênçãos que Ele pode dar, de tal forma que, se Ele nada me der de material nesta vida, Ele, em si, já será o suficiente para a minha plena alegria.
O amor expresso a Cristo se vê, também, na doação pessoal, tal como expressa na Confissão de Fé, quando diz: “procurando andar diante dele em toda boa consciência”, ou seja, os que amam a Cristo procuram viver de forma agradável ao seu Senhor, de forma que suas consciências não os acusam de denegrirem a imagem daquele que os amou e redimiu. Ninguém que diga estar em Cristo e anda nas trevas fala a verdade, antes, a si mesmo se engana e caminha a passos largos para a condenação (1 Jo 1.5,6). Não importa quantas vezes você vá a igreja, cante louvores a Cristo, faça orações e leia a Bíblia; se a sua vida não desejar a santidade requerida por Ele, e não pautar suas decisões de vida a partir da honra que Ele requer, você estará entre os que se enganam para a perdição da alma. A salvação requer de nós integridade, desejo de pureza e santidade; assim, é incompatível a vida em Cristo e a vida no pecado.
Considerando estes pontos, podemos afirmar que, ainda nesta vida, pode o crente se assegurar de sua salvação. Reisinger nos diz que esta certeza se fundamenta sobre a infalível Palavra de Deus, as graças das quais a Palavra fala ao coração do crente e o testemunho do Espírito de nossa filiação divina (Rm 8.16). Ou seja, a certeza se fundamenta na declaração que a Escritura Sagrada faz quanto aos salvos, e não em nossos sentimentos quanto à matéria, pois o nosso coração é enganoso, e em muitos momentos poderemos até sentir uma certa insegurança, mas a Palavra de Deus nos assegura que se “estamos em Cristo”, somos novas criaturas (2 Co 5.17), e isto deve dissipar as dúvidas dos nossos corações quando Satanás tentar nos abater com palavras de condenação: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

sábado, 20 de dezembro de 2008

A CERTEZA DE SALVAÇÃO À LUZ DAS ESCRITURAS - A FALSA CERTEZA DE SALVAÇÃO (II)

A parábola dos fundamentos, contada por Jesus, aponta para uma realidade muito triste e perigosa: muitas pessoas se enganam quanto à sua salvação, não examinam sua fé, sua vida, seu coração, e por isso caminham iludidos para o inferno, achando caminhar para o céu. Isto nos faz questionar: o que impede as pessoas de enxergarem a verdade sobre si mesmas, sobre o estado de suas almas? R.C. Sproul ("A Alma em Busca de Deus", ed. Eclesia, p. 158), acredita que a falsa convicção de salvação pode ser atribuída a um entre dois erros fatais: ou a uma falsa compreensão das condições, ou exigências, da própria salvação, ou a uma falsa avaliação quanto à nossa capacidade de satisfazer às exigências da salvação. Ele afirma: “a primeira é uma análise defeituosa da salvação; a segunda, uma análise defeituosa de nós mesmos”.
O entendimento errado da salvação, das suas exigências, leva o homem ao engano, banalizando a seriedade daquilo que ela representa e do sacrifício exigido por ela. Assim, Sproul alista quatro análises defeituosas da salvação que levam as pessoas a descansarem num fundamento insólito, inseguro e condenarório. A primeira é o universalismo que ensina que Cristo assegurou a salvação para toda a humanidade. Sproul responde a este ensino lembrando que, se isto é verdade bastaríamos estar seguros de pertencemos à raça humana. E isto independeria de continuarmos em pecado ou não. E se isto é assim, que sentido tem a palavra “salvação”? Se todos herdarão os céus, seria uma grande incoerência falar de pessoas salvas, uma vez que ninguém estaria perdido. Ao contrário deste ensino a Palavra de Deus insiste que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).
A segunda análise defeituosa diz respeito ao ensino da justificação pelas obras, a qual ensina que, se as pessoas assumirem uma vida boa, ou forem boas o suficiente, estarão salvas. Para Sproul há dois erros gravíssimos com este ensino: primeiro, ele nega a justificação exclusiva pela fé; segundo, faz uma avaliação errada da capacidade do ser humano, como se este fosse capaz de fazer boas obras, ou obras boas o bastante para satisfazer às exigências da lei de Deus, a qual requer perfeição. A Bíblia afirma, claramente: “Não há quem faça o bem” (Sl 14.3). Somente Jesus cumpriu a lei de Deus perfeitamente, e somente por meio dos seus méritos somos justificados diante de Deus.
A terceira análise defeituosa nos leva a pensar que a filiação à uma comunidade de fé é o suficiente para alcançarmos a salvação. Entretanto, Jesus reconheceu que as pessoas podem honrá-lo com seus lábios enquanto seus corações continuam distante dEle. Talvez este seja o maior perigo em nossos dias, confundirmos a confissão de fé salvífica em Jesus, com uma confissão denominacional. Percebe-se este perigo quando vemos inúmeros testemunhos televisivos apontando para o bem que denominação x ou y fez na vida de determinada pessoa por causa de “bênção” alcançada. As evidências da conversão (arrependimento e fé em Cristo para a salvação), sequer são mencionadas em tais testemunhos. Todavia, as pessoas se sentem seguras por pertencerem àquela igreja de onde auferiram a “graça” que buscavam. O fato de receber uma bênção de Deus não nos assegura salvação; como evidência disto, lembremos a história dos 10 leprosos, onde apenas 1 alcançou a salvação (Lc 17.11-19); ou lembremos, ainda, as palavras do próprio Senhor Jesus: “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22.14).
A quarta, e última, análise defeituosa sobre a salvação refere-se ao pensamento de que basta que a pessoa seja religiosa que alcançará a salvação. Por religiosa se entende, ou se quer dizer, alguém que, além de praticar os ritos religiosos de algum grupo, procura viver de forma digna, com ética, a sua vida. Novamente caímos no problema da má compreensão de nossa natureza humana: somos pecadores, portanto, não podemos fazer, absolutamente, nada isento de pecado. Além disso, ainda que alguém pudesse viver de forma íntegra, não poderia viver sem pecar, o que já a tornaria merecedora de julgamento, pois se o céu é um lugar perfeito, não cabe, ali, pessoas imperfeitas.
Reforça esta última análise defeituosa da salvação um dito popular que afirma que “todas as religiões levam à Deus”. Entretanto, as Escrituras afirmam, claramente, que a salvação ocorre exclusivamente por meio de Jesus, e que todas as religiões pagãs são repugnantes para Deus, pois roubam a glória de Deus e a transformam em glória de homens. Qualquer religião que negue a fé em Cristo como caminho para a salvação é mentirosa, enganadora.
O segundo caso que produz uma falsa convicção de salvação, segundo Sproul, é uma análise equivocada de nós mesmos. Ainda que saibam que a salvação se dá exclusivamente pela fé, as pessoas são tentadas a pensarem em suas atitudes como merecedoras da salvação. Há uma idéia de que somos participantes, com Deus, do processo salvífico. Ora, a Escritura declara que estamos “mortos em nossos delitos e pecados” (Ef 2.1), e se estamos mortos, como tal, não temos como responder a nada, nem fazer qualquer coisa por nós mesmos. Por isso a Bíblia fala da salvação como um “nascer de novo”, ou seja, voltar à vida; mas isto não se refere à reencarnação, como deturpam os espíritas esta frase. O que se quer dizer com “nascer de novo” é a necessidade de voltar a viver espiritualmente, sendo capaz de responder ao chamado de Deus e de fazer a sua vontade, tal como expressa em sua lei. Neste sentido, somente Deus pode nos fazer viver novamente por operação do seu Santo Espírito que aplica em nós o perdão e a vida conquistados por Cristo Jesus em sua morte e ressurreição.
Como a falsa convicção de salvação é um ensino claro nas Escrituras, precisamos tomar cuidado para que não nos encontremos sustentados sobre os nossos esforços vãos. Enquanto persistir em nós a mínima idéia de que somos salvos por nossos esforços, corremos o risco de nos enganarmos quanto à nossa salvação e, lamentavelmente, nos encontrarmos totalmente perdidos. Enquanto nossos corações e fé não repousarem plenamente na obra de Cristo, em sua morte e ressurreição, devemos questionar o sentimento religioso que há em nós, pois aqueles que, verdadeiramente, são salvos, tem testificado em seus corações, por meio do Espírito Santo de Deus, que, de fato, são filhos de Deus (Rm 8.16).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A CERTEZA DE SALVAÇÃO À LUZ DAS ESCRITURAS - A FALSA CERTEZA DE SALVAÇÃO (I)

Continuando nosso estudo, examinemos, agora, a doutrina, em si, da certeza de salvação. Para fins didáticos, tomaremos como base para a nossa análise a sistematização da doutrina tal como se apresenta na Confissão de Fé de Westminster, capítulo XVIII, por considerarmos que o trabalho desenvolvido pelos teólogos puritanos ingleses, do século XVII, foi de grande envergadura acadêmica e espiritual, delineando, claramente, aquilo que a Escritura Sagrada expõe sobre o tema. Vejamos, então, os pontos relevantes, e chaves, da matéria em apreço.
1) Existe uma falsa certeza de salvação.
Às vezes ouço a seguinte objeção à doutrina: "Fulano de tal era um crente fiel a Jesus, participava de todas as atividades da igreja, pessoa consagrada, mas de repente, se desviou, foi para o mundo e se perdeu. Como explicar isso? Esta pessoa continua salva apesar disso?”
O grande problema, neste caso, é a mentalidade de conversão que adquirimos com a teologia defendida por Charles Finney (para um entendimento do estrago que Finney produziu na teologia cristã sugiro a leitura do artigo “Adoradores ou Consumidores: o outro lado da herança de Charles G. Finney, de Augustus Nicodemus Lopes, que pode ser baixado no site www.monergismo.com). De acordo com Finney, a salvação era obtida por uma decisão manifesta pela pessoa por meio de um gesto. Assim, ele introduziu a idéia do apelo após a mensagem e a insistência para que a pessoa “aceitasse” a Cristo. Se, então, ela levantasse a mão, isto indicaria que estava salva.
O que acontece neste tipo de pregação é que a salvação passa a ser uma decisão da vontade da pessoa, e não um “nascer de novo”, como Jesus ensinou em Jo 3, quando falando com Nicodemus disse: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus...importa-vos nascer de novo” (v. 5,7). Observe, há uma obra que se opera em nós, não é algo resultante de nossa vontade pessoal, mas da ação de Deus sobre nós. Para que isto fique claro o Senhor Jesus acrecenta um comentário: “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim, é todo o que é nascido do Espírito” (v.8). É o Espírito quem opera e faz nascer o filho de Deus redimido, e não a vontade pessoal por si mesma.
É por causa disto que o parágrafo I da Confissão de Fé assim inicia o assunto: “Ainda que os hipócritas e os demais não-regenerados possam iludir-se vãmente com falsas esperanças e carnal presunção de se acharem no favor de Deus e em estado de salvação, esperança essa que perecerá...”
Este parágrafo da Confissão de Fé nos alerta para o fato de que existem pessoas que experimentaram algum tipo de fé e deixaram-se iludir pela mesma, achando tratar-se da fé salvífica. Entenda: as pessoas naturais, não-convertidas, têm um tipo de fé natural, fruto da sua confiança em algo. Mas esta confiança precisa de algo visível, palpável para projetar-se. No caso da fé a mesma não é palpável, visível, assim, o homem natural projeta sua fé em si mesmo, naquilo que pode e quer acreditar. Por isso, sua fé não pode salvá-lo, a menos que experimente um “novo nascimento”, uma experiência que o faça romper consigo mesmo para projetá-lo em Cristo. Bem, é isto o que o Espírito Santo faz, ele nos tira da confiança pessoal (na verdade, Ele desmonta todo o nosso sentimento de confiança pessoal), e nos faz olhar para Cristo, para o Calvário, e nos faz compreender que ali estávamos sendo punidos, e pelo sangue do cordeiro sendo reconciliados. Isto não é mero assentimento inlectual, é uma experiência de renovação da mente; não é mera confiança pessoal, é sentimento de incapacidade pessoal e necessidade de um salvador. Assim, não é o assentimento da vontade que nos salva, como defendia Finney, mas a experiência de novo nascimento (espero tratar disso melhor num próximo estudo).
O que caracteriza este novo nascimento? Essencialmente a mudança da disposição da vontade. Antes amávamos o mundo e tudo o que havia no mundo; nascido de Deus, passamos a amar a Deus e a sua Lei, pois é na sua Lei que encontramos a sua vontade expressa. Quem diz amar a Deus e rejeita a sua Lei, de fato não O ama, mas permance nas trevas; quem diz amar a Deus, mas continua amando as coisas do mundo (baladas, prostituição, músicas pecaminosas, etc.), de fato não conheceu a luz de Cristo; quem diz amar a Deus e continua escravo do pecado, de fato não conhece a Cristo, não nasceu de novo.
Assim, aqueles que um dia estiveram na igreja, participaram ativamente, se mostraram dedicados e consagrados e “caíram”, não voltando mais para o Senhor, de fato não nasceram de novo, e a fé que um dia professaram era falsa, longe do fundamento, que é Cristo. Esta fé que expressaram não era aquela produzida pelo Espírito de Deus que leva o ser humano à regeneração. Conseqüentemente, estas pessoas, em algum tempo, viram sua fé desfalecer ou ser desmascarada.
Ernest C. Reisinger ("Lord & Christ: the implications of lordship for faith and life", Phillipsburg, New Jersey: P&R Publishing. p.114), nos lembra que é por causa da possibilidade da decepção religiosa que o Novo Testamento nos adverte muitas vezes sobre crentes espúrios. Em Mateus 7. 22 Jesus nos fala daqueles que no último dia dirão: “Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?” E Jesus lhes responderá: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.”(v.23).
Este texto aponta para duas marcas que podem nos fazer confundir a verdadeira fé que salva da falsa fé, produzida pelo coração humano, que conduz à perdição. A primeira marca é a falsa piedade. Observe que, segundo Jesus, muitos dirão naquele dia “Senhor, Senhor”. Talvez você não esteja familiarizado com esta expressão, mas no mundo semita quando se desejava enfatizar algo usava-se o recurso da repetição. Assim, no dia do juízo muitas pessoas se chegarão a Cristo mascaradas de uma falsa piedade, enfatizando o senhorio de Jesus sobre suas vidas, sem, contudo, o conhecerem de fato. Diante dos homens eram mui piedosas, mas estavam totalmente longe do reino de Deus.
A segunda marca se vê no apelo que fazem ao uso de dons. São pessoas que, no nome de Jesus, profetizaram, expeliram demônios, fizeram milagres, etc. Todavia, estavam perdidos, não conheciam, de fato, a Jesus. Conheciam o seu poder, mas não a sua graça. A fé salvífica não se confunde com o uso de dons espirituais; na verdade, os dons são apenas ferramentas que nos capacitam a servir a Deus no mundo e na igreja, mas nada tem a ver com nossa salvação ou espiritualidade.
Diante disto fica a questão: se é possível existir uma falsa piedade, que aos olhos humanos parece verdadeira, e se os dons não servem para indicar os filhos redimidos de Deus, como identificar os salvos? Observe o porquê da rejeição de Cristo a estes homens: “apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23). Apesar de demonstrarem piedade e poder, estas pessoas continuavam escravas do pecado, ou seja, não haviam nascido de novo, não sabiam o que era, de fato, ser regenerado.
Como se vê, aqueles supostos discípulos haviam experimentado algum tipo de fé, sem que esta pudesse salvá-los. Experimentaram dons do Espírito, sem que pertencessem a Cristo.
A advertência de Jesus a esta falsa segurança continua na parábola seguinte, onde dois homens construíram sua casa em terrenos diferentes, um sobre a rocha e outro sobre a areia. Aparentemente não se via diferença, mas no dia do julgamento o fundamento de cada casa foi revelado. Ambos ouviram a palavra da verdade, mas só um a praticou. Ambos criam estar seguros, mas só um se salvou da ruína.
O que leva, então, alguém a uma falsa convicção de salvação? No próximo estudo continuaremos examinando este aspecto, para que possamos fazer um juízo melhor de nossas próprias vidas e da fé que professamos em Jesus, para que não sejamos contados entre aqueles que do Senhor ouvirão, no dia do Juízo: apartai-vos de mim.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PRESSUPOSTOS BÁSICOS PARA A CERTEZA DE SALVAÇÃO

Nenhuma doutrina surge do nada, ou é fruto de um juízo imparcial, à priori. Tudo o que declaramos crer resulta de pressupostos assumidos antes de qualquer investigação. Diante disto, podemos tomar duas atitudes: ou investigamos apenas para assegurar o que queremos crer, ou investigamos nossas crenças para averiguarmos se têm fundamento ou não, e aí, sim, tomarmos uma decisão pela verdade.
J. Kuerzinger (Dicionário de Teologia Bíblica, v.2. Ed.: Johannes B. Bauer. São Paulo: Edições Loyola. p.1037), nos lembra que “a discussão sobre a certeza da salvação depende essencialmente da compreensão que se tem da salvação cristã em geral.” Neste sentido, aqueles que advogam que a salvação é obra meritória do homem, resultado do seu suposto “livre-arbítrio”, negam a possibilidade do cristão ter certeza de sua salvação. O livre-arbítrio agiria de duas formas diferentes, dependendo do grupo a que se pertença: ou levando o homem à prática das boas-obras (geralmente reconhecidas como “caridade”), ou levando o homem a exercer a fé no salvador Jesus. Por causa disso, há uma divergência entre eles sobre a impossibilidade da certeza de salvação. Para uns (e.g. católicos-romanos), não se pode ter certeza da salvação porque não sabemos se já alcançamos a “quantidade” necessária de obras para sermos salvos. Na concepção católico-romana, a salvação resulta de uma “balança” equlibrada entre a obra de Cristo na cruz e as boas-obras dos homens. Assim, em algum momento estaremos salvos, mas como nossa maldade aflora constantemente, a certeza nunca é possível, pois não sabemos onde está o pêndulo.
Para outros (e.g. os pentecostais na sua grande maioria), não se pode ter certeza de salvação porque o suposto “livre-arbítrio” pode me fazer crer em Cristo num dia, e no outro me fazer negá-lo. Assim, o chamado à santidade no pentecostalismo se confunde com a salvação. Somente se santificando o homem poderia ser salvo. Novamente nos encontramos diante da “balança” proposta pela Igreja Católica, só que agora o peso de medida é outro, as obras de santificação e não a caridade. A idéia é simples: Cristo fez a parte dele na cruz, quebrou a maldição do pecado; cabe ao crente, agora, se santificar em obediência aos ensinos de Jesus. Quando o fiel alcança a medida da obra de Cristo sua salvação está garantida, porém, não permanentemente, pois o crente pode “cair da graça”, desequilibrar a balança e perder sua salvação.
É pressuposto deste artigo que a salvação, tal como se apresenta no Antigo e Novo Testamentos, é, primeiramente, uma obra de libertação do pecado e da morte, sob os quais toda a humanidade se encontra, oferecida graciosamente aos eleitos de Deus através da obra redentora de Jesus Cristo (Rm 3.23). Ponderemos detalhamente nestas afirmações:
• A salvação é uma obra de libertação do pecado e da morte. Pecado implica em rebeldia contra Deus, contra a Sua vontade manifestada em Sua Lei. Neste sentido, a Bíblia declara: “Não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.3; Rm 3.9-18). Por causa disso, o homem sem Cristo ama o pecado, e não tem interesse nenhum pelo graça oferecida por Cristo (Jo 3.19). Como conseqüência, a Bíblia declara que este homem está morto espiritualmente (Ef 2.1), portanto, não pode desejar a vida, pois tudo o que conhece é a morte.
• Toda a humanidade se encontra debaixo do poder do pecado e da morte. A situação espiritual dos homens é igualitária, todos são filhos da desobediência (Ef 2.2), assim, não há ninguém capaz de praticar o bem por si mesmo. Tudo o que podem praticar é peculiar à sua natureza pecaminosa. Assim, como nenhum homem pode fazer o bem por sua própria vontade, mas apenas aquilo que é pertinente ao pecado, não existe livre-arbítrio, mas livre-agência, ou seja, a capacidade de se fazer tudo o que é pertinente à própria natureza.
• A salvação é oferecida, graciosamente, aos eleitos de Deus através da obra redentora de Cristo. Ou seja, somente os eleitos receberão os benefícios da obra redentora de Cristo (Rm 8.29,30; 2 Ts 2.13).
A primeira afirmação nos leva à segunda constatação bíblica, que a obra salvífica se torna efetiva por meio da vocação eficaz realizada pelo Espírito Santo de Deus. Com isto queremos dizer que há a necessidade do Espírito Santo chamar o eleito, mediante a pregação do evangelho, à salvação. Este chamado é eficaz porque cumpre o seu propósito na vida do eleito, pois ao conhecer a luz, manifesta em Cristo Jesus, ele deseja, ardentemente, entregar-se ao seu redentor, pois além de ter seus olhos abertos, tem o seu coração transformado; a Lei de Deus já não é insuportável para ele, antes pelo contrário, o seu prazer está em obedecer por ter sido redimido (1 Jo 2.4-6). “A menos que Deus, pelo seus Espírito, abra o coração do ouvinte, capacitando-o a crer, ele ou ela jamais poderá aceitar o convite do evangelho.” (Anthony Hoekema, Salvos pela Graça,Cultura Cristã, p.88).
Este chamado regenera o coração do pecador, levando-o à conversão por meio da fé, a qual lhe assegura os benefícios da cruz do Calvário conquistados por Jesus. A fé, neste sentido, não é um exercício de algum livre-arbítrio próprio do homem, mas um dom concedido por Deus na regeneração. Somos salvos pela graça, mediante a fé, diz o apóstolo Paulo (Ef 2.8), mas observe que ele diz que isto, tanto a graça quanto a fé (em grego temos o pronome demonstrativo touto, no gênero neutro, o qual se aplica tanto à graça quanto à fé neste texto), não vem de vós, é dom de Deus. Assim, a salvação torna-se uma realidade fundamental nesta vida, pois nos foi outorgada pelo próprio Deus. Por isso a Escritura chama Jesus de “autor e consumador” da nossa fé (Hb 12.2). Todavia, é na volta do nosso Senhor Jesus que a salvação recebe sua plena consumação.
Como esperamos ter delineado acima, é pressuposto básico deste trabalho que a salvação nos é garantida única e exclusivamente pela obra graciosa de Deus em Jesus, a qual é recebida pela fé e não por nossos méritos ou esforços, quer sejam de caridade ou atos de fé.
Entendido isto, podemos, então, explorar a doutrina da certeza da salvação. Todavia, caso você não concorde com esta exposição resumida da obra da salvação, dificilmente você entenderá e aceitará o fato de que o crente, ainda que possa vir a pecar, pode ter certeza de sua salvação e, assim, ser guiado pelo Espírito Santo de volta ao Pai que o escolheu e chamou em Jesus para a vida eterna.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CERTEZA DE SALVAÇÃO - Introdução

CERTEZA DE SALVAÇÃO
A realidade evangélica brasileira padece de um grande mal teológico medieval, o da incerteza quanto a sua posição no Reino de Deus. Os cristãos de nossa geração experimentam um tipo de fé que produz medo e frustrações. Uma fé que não assegura verdades eternas para aqueles que a possuem.
Como conseqüência disto, vemos crentes enfermos espiritualmente, estagnados no processo de santificação, de crescimento no relacionamento com o Senhor, e até mesmo indispostos a amadurecer.
Isto tem se estabelecido em nosso meio de uma forma avassaladora, visto que a conversão tem sido mal ensinada e mal compreendida em nossas igrejas. O que observamos é um ensino que se fundamenta nas obras meritórias do fiel, numa série de regras que devem ser guardadas e sem as quais o mesmo estaria condenado.
Por mais que neguemos tal aspecto, e atribuamos a Cristo a nossa salvação, esta não é vista de fato como um descanso de fé na obra que Ele realizou na cruz do calvário pelos seus. A salvação, no inconsciente de uma boa parte dos cristãos, repousa em Cristo, mas não naquilo que Ele realizou no Calvário, mas naquilo que Ele ensinou.
Esta visão nos leva ao cerne do problema soteriológico do gnosticismo tal como se apresenta no século II, onde a salvação oferecida por Cristo recaía nos seus ensinos e aqueles que obtivessem o conhecimento (gnosis) do mesmo e lhe observasse seriam salvos.
O catolicismo medieval cometeu um erro similar ao negar a possibilidade da certeza da salvação por confundi-la com a santificação. Apesar de aceitar o sacrifício de Jesus na cruz, a Igreja negava a possibilidade de termos a certeza de que aquele ato nos incluía e nos livrava da condenação. Anthony Hoekema cita alguns parágrafos dos Cânones e Decretos do Concílio de Trento onde se diz:
Ninguém sabe com a certeza da fé, que não pode estar sujeita a erro, que obteve a graça de Deus.
Ninguém, enquanto está nesta vida mortal, pode presumir, com respeito à divina predestinação, que pode determinar por certo que está entre os números dos predestinados... exceto por revelação especial, não se pode saber quem Deus escolheu para si mesmo. Se alguém diz que um homem, nascido de novo e justificado, é obrigado
pela fé a crer que tem lugar assegurado no número dos predestinados: seja anátema.
Assim, a salvação se torna um esforço humano em observar os ensinos de Jesus sem que se possa ter a certeza de já a ter alcançado. Como resultado deste esforço temos o cansaço espiritual e, em uma boa parte dos casos, a frustração.
Este é o mesmo quadro que se desvenda no cenário evangélico brasileiro onde o legalismo é sinônimo de meio para a salvação. Daí porque termos tantos cristãos desfalecidos em sua caminhada e tantos outros estagnados no crescimento espiritual.
Possuir a certeza de salvação é de suma importância para o progresso espiritual. Como alerta o Dr. R.C. Sproul,
Talvez nada seja mais importante para acelerar nosso crescimento cristão do que uma correta e sólida convicção da salvação. Quando duvidamos acerca de nossa condição no Reino, tornamo-nos vulneráveis aos dardos flamejantes de Satanás. Somos como junco balançando ao sabor do vento. Tornamo-nos como cortiça no oceano, sendo sacudidos a cada mudança da maré.
A estabilidade é a marca do cristão maduro. Tal estabilidade não é possível, contudo, se o próprio alicerce do crente não for sólido. Casas estáveis repousam sobre fundações estáveis.
É com esta preocupação pastoral que desejamos expor a doutrina da certeza de salvação, fundamento essencial para o desenvolvimento de nossa fé.

SÉRIE "ESTUDOS BÍBLICOS"

Amados irmãos e irmãs, é com grande alegria que hoje iniciamos uma série de estudos teológicos através deste blog. Quero agradecer o incentivo que tenho recebido de minha esposa nesta tarefa, bem como as palavras estimulantes da irmã Miriam Simões para que isto acontecesse. Aproveito para externar minha gratidão pública à ela e seu esposo, Presbítero Sérgio Simões, pelo apoio, conforto e exortações em minha caminhada de restauração pessoal. Que o Senhor Deus os cubra de bênçãos sempre e a toda a sua casa (Regina, Eduardo e Luis Paulo).
Considerando toda a minha caminhada de restauração pessoal no ano passado, entre muitas lágrimas e dores que me foram impostas por Deus, disciplinando-me para moldar meu coração à sua vontade, creio que o tema desta primeira série seja oportuno, pois foi a certeza de minha salvação, em Jesus Cristo, que me fez andar seguro, ainda que em meio a extremo sofrimento. Não foram poucas as lágrimas, mas a certeza de que tudo aquilo era porque Deus me amava, me havia escolhido comO seu filho e havia me dado a salvação, em Jesus, era algo renovador em minha alma. Assim, compartilho com os irmãos e irmãs mais do que reflexões teológicas; compartilho a certeza que me fez caminhar em silêncio, aceitando toda a ira de Deus, na certeza de ser filho redimido e salvo por Jesus. Hoje, colho os frutos desta bênção.
Que o Senhor Deus te abençoe ricamente no estudo desta doutrina maravilhosa que a Bíblia nos ensina.
A todos os irmãos e irmãs da Igreja Presbiteriana de Cruz das Almas (Tietê/SP), que oraram, e ainda oram por mim, minha gratidão, e recebam estes estudos como uma oferta a vocês também pelo tanto que pude aprender caminhando convosco.

domingo, 23 de novembro de 2008

A Influência de nossa cosmogonia sobre nossos relacionamentos

Em que consiste o fundamento das relações humanas? As respostas podem ser as mais variadas possíveis, amor, respeito, consideração, honra, etc., mas na verdade todas estas alternativas mascaram algo mais profundo, as crenças e valores que carregamos em nossos corações, modernamente chamado pela psicologia de inconsciente.
Não temos como fugir ao fato de que todo relacionamento saudável brota de escolhas que fazemos interiormente, de afinidades que se estabelecem, gerando ou simpatia ou empatia. Quando isto não ocorre se diz que houve antipatia. E nestas formas de interação surge a questão: de onde procede tais níveis de relação? Sem dúvida alguma daquilo que herdamos como “verdades” sobre a vida, e neste ponto introduzimos aquilo que julgamos ser o cerne do problema, a cosmogonia que absorvemos em nossa cultura.
Podemos dizer, com toda certeza, que a cosmogonia que aceitamos determina todo o conjunto de crenças, valores, comportamentos (ethos) e sentimentos (pathos), de nossa existência. Por cosmogonia se entende a concepção que se tem da formação do universo, e neste caso duas são as possibilidades: o acaso, sendo tudo resultado da evolução aleatória, ou o planejamento proposicional, resultado da criação efetuada por um Deus sábio e amoroso.
No primeiro caso, tem-se que a vida em nada possui propósito, sendo resultado de acidentes cósmicos. Assim, os nossos relacionamentos são forjados a partir de instintos que precisam ser supridos. Neste sentido, bom filme é “A guerra do fogo”, pois evolucionista em sua conceituação desce aos meandros da complexidade formativa das relações humanas a partir de interesses egoístas e instintivos no ser humano, animal que era. Percebe-se, então, os fundamentos relacionais desta cosmogonia:
• Amoralidade: o ser humanos, enquanto animal, não possuía noção de moral, seguindo e vivendo segundo seus instintos, portanto, não existindo certo e errado, sendo verdadeira e válida toda relação que estabelece com o seu semelhante, podendo, inclusive, matá-lo e violentá-lo sem que isto lhe pesasse a consciência. Os código morais seriam exigências da organização social e das necessidades de sobrevivência e poder do ser humano.
• Vazio de sentido para a vida: obra do acaso, a que se destina a vida? A nada! Assim, cada um dá o sentido que quer à sua existência.
• Egoísmo: não existindo códigos de comportamento e sentimentos, nem sentido para a vida em si, o homem se volta para si mesmo e seus instintos, criando aquilo que julga importante. Assim, afloram duas manifestações claras do egoísmo: o instinto de sobrevivência e a busca pelo poder/prazer.
Destas questões decorre o lenda do “super-homem” apregoada por Nietzsche, que a espécie mais forte subjuga e sobrevive sobre a mais fraca, tendo nesta o alimento do seu poder e prazer.
Ora, vendo isto, então, entendemos porque nossa sociedade vê na banalização do sexo, na promiscuidade e na violência algo natural. Num mundo que obra do acaso, que mal há em deixar aflorar os instintos? Por que não suprir a vontade sexual com várias pessoas? Por que não explorar o próximo a fim de se enriquecer ou obter posições e poder? Se não existe moralidade mesmo, se esta é resultado de acordos de sobrevivência entre povos, o que há de errado em olhar para o meu semelhante e ver nele apenas alguém que pode me potencializar como espécie mais forte da raça humana?
No segundo modelo cosmogônico temos que o universo não é obra do acaso, mas foi algo planejado a fim de cumprir um propósito. Assim sendo, fundamentam os relacionamentos humanos nesta conceituação:
• Moralidade: como obra planejada, a vida é regida por leis claras que estabelecem o seu bem ou o seu mal. Existe uma moralidade inerente à criação, que perpassa os relacionamentos humanos.
• A vida é constituída de sentido: não caminhamos para o vazio, para o nada, mas para um fim, e esta caminhada se faz ao lado do próximo, alguém que me ajuda e completa como pessoa.
• Altruísmo: como o próximo não é alguém de quem subtraio poder ou realizo minhas vontades, a relação se constitui numa forma de doação e crescimento mútuo.
Dentro duma perspectiva bíblica de criação, os relacionamentos se potencializam dentro de uma cosmovisão sobre a natureza do homem, criado à imagem e semelhança do seu Criador, o que implica:
1. Que tenho no meu semelhante alguém igual a mim, sendo ele, não importa sua situação, criado para refletir o seu Criador tanto quanto eu. E é nesta semelhança, na capacidade de nos vermos também no outro, que se desenvolve o amor e a compaixão. A imagem e semelhança de Deus em nós equilibra nossa visão do outro:
• Não sou melhor do que ninguém, porém, também não há ninguém melhor do que eu; somos iguais.
2. Que tenho no meu semelhante alguém que me ajuda a crescer e a quem sirvo para que cresça também. A vida se torna um serviço de amor recíproco.
3. Que Deus estabeleceu leis claras de como viver potencial e plenamente esta relação. Entende-se que primeiro deve-se amar ao Criador e somente a partir do amor dele por nós, em Jesus, somos capazes de amar ao nosso semelhante. O Decálogo é um excelente exemplo disto.
As nossas decisões relacionais dependerão, em muito, da forma como entendemos a formação do nosso universo. Quanto mais longe formos da compreensão da criação, tanto mais longe nos tornaremos do nosso próximo.

domingo, 19 de outubro de 2008

SOBRE AS DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS ENTRE AS RELIGIÕES CHAMADAS CRISTÃS E NÃO-CRISTÃS QUANTO ÀS DOUTRINAS

O universo religioso é muito complexo. Muitas são as perguntas que suscitam a inquietação religiosa, tais como: de onde vim, o que faço aqui e para onde vou. E diante disso, o ser humano se vê cercado por um outro vasto universo, o das religiões. São elas que tentam dar respostas aos anseios religiosos da humanidade.
Todavia, em busca de respostas estas religiões acabam criando um dilema maior, o da verdade. Suas doutrinas são tantas, e tão variadas que uma contradiz a outra causando inquietação na alma daquele que busca um encontro genuíno com Deus.
E é neste confronto com as demais religiões que o cristianismo se mostra tão singular em suas crenças, suas doutrinas. E isto se faz sentir nas próprias palavras de Jesus quando nos diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai a não ser por mim”. (Jo 14.6)
É interessante observar como o Filho de Deus se define, não como uma alternativa ou opção, mas como O caminho, A verdade e A vida, mostrando-se singular em relação a qualquer outro que tenha existido antes dele ou viesse a existir depois. Como reforço de sua mensagem nos diz enfaticamente que ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Assim, o cristianismo se apresenta como a única e verdadeira mensagem para as indagações religiosas do coração humano.
Por isso, é interessante compararmos as crenças cristãs em relação as demais religiões, que no geral apresentam crenças muito parecidas, pouco distintivas e que se chocam com as afirmações do cristianismo.
A primeira doutrina importante para nossa comparação é o conceito de Deus. As religiões podem ser divididas em dois grupos básicos quanto a esta questão, em religiões monoteístas e politeístas.
O cristianismo é uma religião monoteísta, pois crê na existência de um único Deus. Assim, já descarta qualquer possibilidade de aproximação conceitual com as religiões politeístas, as quais acreditam na existência de vários deuses. Todavia, é interessante observar que mesmo sendo monoteísta o cristianismo se mostra diferente das demais religiões que professam a crença em um único Deus, pois o conceito cristão abarca a idéia de um Deus Trino. Isto implica dizer que Deus é um só, mas nele subsiste três pessoas distintas, todavia de uma mesma substância e iguais em poder e eternidade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Outra questão importante entre as religiões é o problema do relacionamento do homem com Deus. Na sua maioria as religiões acreditam que o ser humano foi obra da criação divina. Por isso esta necessidade que ele tem de buscar a Deus. Todavia, a forma como este relacionamento é estabelecido é muito diferente entre uma religião e outra, e novamente o cristianismo se mostra singular entre elas. Enquanto que para as demais religiões o fiel se aproxima por meio de sacrifícios e ofertas, o cristianismo alega que só é possível tal contato por meio de Jesus, o Filho de Deus.
Esta doutrina tem sua razão de ser dentro do cristianismo. É crença cristã que o ser humano é pecador e por isso se encontra afastado de Deus, visto que Ele é santo. Assim, só por meio da mediação de Jesus Cristo, que morreu na cruz do calvário e ressuscitou, trazendo vitória sobre a morte, é que alguém pode se aproximar de Deus Pai e ser recebido.
Isto nos aponta para uma terceira diferença essencial entre o cristianismo e as demais religiões, a forma de salvação. Aqui novamente as religiões se dividem. Umas crêem na salvação como uma forma meritória, outras como purificativa e o cristianismo como uma obra da graça de Deus; ou seja, a salvação, segundo a fé cristã, não é obra do ser humano nem de um processo evolutivo espiritual por meio de várias reencarnações, mas obra divina por meio de Jesus, oferecida gratuitamente à todo aquele que nele crê: “Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu o seu Filho, o seu único, para que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16); “Com efeito, é pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isso não depende de vós, é Dom de Deus” (Ef 2.8).
Se existe salvação, é porque existe alguma forma de condenação ou punição, e aqui se mostra outra diferença entre o cristianismo e as demais religiões. Por causa do pecado o ser humano foi lançado fora do Paraíso e condenado à morte eterna num local chamado de inferno, que segundo à Bíblia foi criado em princípio para o diabo e seus anjos (Mt 25.41). Os que recebem a Cristo, como vimos, serão salvos, mas os que o recusarem serão condenados.
Para muitas religiões isto é um absurdo, e em vez de castigo eterno crêem em punições temporais, de tal forma que é dado ao fiel uma outra chance, em outra vida, de pagar pelos seus erros.
Neste ponto o cristianismo destoa novamente das demais religiões, principalmente as orientais, ou aquelas influenciadas pelas doutrinas espiritualistas orientais, pois é crença cristã a ressurreição dos mortos, e não a reencarnação. A leitura bíblica cristã afirma que aos homens está destinado morrerem uma única vez vindo, depois disto, o juízo (Hb 9.27). É neste dia de juízo que os corpos ressuscitarão de uma forma nova, gloriosa, sem corrupção e imortal (1 Co 15.50-53).
Este dia do juízo aponta para uma outra crença fundamental do cristianismo que o diferencia das demais religiões, o fim da história. Esta que teve início na criação verá sua consumação no dia da volta de Jesus com o fim julgar vivos e mortos. Assim, a história não é permanente, cíclica, mas linear.
Em suma, são estas as principais diferenças entre as doutrinas cristãs com relação as religiões não-cristãs. Assim esboçava o Credo Apostólico, e entender tais distinções são necessárias a fim de evitarmos sincretismo religioso que tenta passar por ecumenismo em tempos de apostasia.

sábado, 18 de outubro de 2008

Construindo um Relacionamento Saudável por Meio da Ajuda Mútua

Reconstruir a vida e o relacionamento familiar é uma experiência muito dolorosa e difícil. Porém, em muitos casos, Deus nos dá a graça de conhecermos pessoas maravilhosas que são capazes de nos orientar, confortar e estimular a caminhada de fé. Sou grato a Deus por ter me permitido reconstruir minha história ao lado de Jhosy, minha esposa. Tenho vivido uma experiência incrível de crescimento ao lado dela. E hoje, é com muita alegria que coloco em nosso blog sua primeira reflexão, desejando que seja a primeira de muitas, pois sei que ela tem muita coisa a ensinar sobre sua vivência com a Palavra de Deus, o que a torna uma mulher, além de linda, sábia.

"Dia 18 de outubro, houve mais um encontro de aconselhamento, sendo desta vez abordado o tema: “Como aconselhar casais em casos de crises”. Este assunto é vasto, podemos perceber pela quantidade de livros, artigos e eventos que são realizados nas igrejas, sempre buscando tratar de problemas que se desenvolvem ao longo da vida a dois. Posso dizer que aconselhar não é nada fácil, principalmente quando não sabemos lhe dar nem com os nossos próprios conflitos, mas assim como poderemos precisar de um conselheiro em algum momento do nosso casamento, também deveremos nos disponibilizar a agir como tal procurando ajudar casais a saírem das suas crises, colaborando para que mais um lar não seja destruído.
Tenho observado o meu esposo Airton, que dentre outras coisas mais, também é um excelente conselheiro. Vejo o quanto ele é procurado por casais, ou mesmo por um dos cônjuges, que trazem situações difíceis, entre elas o desejo de se separarem. Alegro-me junto com ele quando contemplamos casamentos sendo restaurados, e percebemos o quanto é importante buscarmos ajuda e também estarmos aptos para ajudar.
Tenho lido alguns livros sobre o assunto; interesso-me porque estou casada há pouco tempo e quero estar atenta às necessidades do meu cônjuge e aos conflitos que podem surgir, pois se não forem tratados no início, no seu ápice se tornarão de difícil contorno. Sempre busquei observar casais ao longo da minha vida, mas hoje não estou como expectadora e sim como atuante, desfrutando dessa bênção instituída por Deus, por isso busco compreender melhor a dinâmica da relação à luz da Palavra de Deus, fonte segura de orientação para nossas lutas e desafios.
Construir família é algo precioso e deve ser feito com responsabilidade e amor, mas acima de tudo necessita ser alicerçada dentro dos padrões bíblicos. Deus criou o casamento de maneira perfeita como tudo o que Ele fez, nós é que o tornamos imperfeito porque somos humanos, cheios de falhas, egoístas e buscamos, na maioria das vezes, os nossos próprios interesses.
Quando Deus estabeleceu o casamento, na criação, este visava promover a glória de Deus, fazendo com que o casal vivesse e cumprisse a vontade do seu Criador. A felicidade seria decorrente disto, e não dos interesses pessoais. Precisamos entender que só seremos felizes se primeiro promovermos a glória de Deus em nossa relação. Uma vez que isto tenha sido feito, então, nosso olhar se volta para o nosso cônjuge e sua felicidade passa a ser algo importante para nós também, pois queremos auxiliá-lo no cumprimento da vontade de Deus. Buscar a felicidade do outro e seu bem-estar fazem parte do nosso mandato diante de Deus. Assim, o amor não deve ser visto apenas como um sentimento, mas sim como uma decisão que tomamos de amar alguém.
Seu casamento não precisa ser um tormento, coloque-o aos pés do Senhor, busque ajuda, não queiram ser mais um no rol de divorciados, não sujeitem seus filhos a essa frustração, e nem alimentem o conceito da sociedade quando diz que casamento é uma instituição falida.
Rogo ao Senhor que nos ensine a vivermos de maneira que o agrade, conduzindo nossas famílias em seu caminho, buscando o seu auxílio em tudo o que formos fazer. Talvez isto signifique rever conceitos em nossas vidas para aprimorarmos nosso relacionamento à luz da Palavra de Deus.
Se você está enfrentando crises em seu casamento, aconselho que busque ajuda, não desista antes de tentar, porque Deus se agrada daqueles que perseveram, acreditando que Ele resolverá os seus problemas.
Felicidades a todos!!!"
Soli Deo Gloria!

Jhosy Ferreira Vasconcelos

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A IMPORTÂNCIA DOS ESTUDOS EXEGÉTICOS E A DICOTOMIA COM A VIDA DE FÉ

O estudo da Bíblia tem sofrido nos últimos anos um descaso, até então, sem precedentes. Desde a Reforma Protestante que se tem dado atenção em especial ao texto em si, procurando compreendê-lo a fim de melhor explicá-lo. Foi abandonada, ali, a exegese do “quadruplo sentido das Escrituras”, que tornava os resultados interpretativos muito subjetivos, e passou-se a valorizar o “sensus litteralis”, ou sentido literal, que procurava ouvir a mensagem objetiva do texto.
Desde então, nestes últimos quatro séculos tem sido a ênfase dos estudos bíblicos esta busca pela sentido primário, aquele que o autor do texto pretendia. Assim, a exegese avançou muito em seus estudos textuais, históricos, literários e filológicos.
No entanto, nossa geração tem abandonado paulatinamente estas ênfases e tem valorizado e praticado uma espécie de leitura mística das Sagradas Escrituras, de tal forma que se tem caído em explicações textuais estranhas à intenção do autor. Isto se deve, talvez, a três fatores:
1) Com o avanço dos estudos exegéticos a Bíblia foi se tornando um estranho nas mãos do povo, a tal ponto que as ferramentas adquiridas para uma melhor compreensão da mesma acabaram se tornando armas apontadas contra aqueles que se arriscavam a interpretá-la. Assim, as pessoas começaram a se intimidar diante daquilo que deveria ser uma ferramenta, e porque se tornou uma arma começaram a rejeitá-la.
2) Outro fator intimidador do estudo exegético das Escrituras foi o resultado proposto. No início a intenção era que estes estudos abalizados produzissem uma aprofundamento da fé desvendando algumas das inúmeras dificuldades interpretativas da Bíblia. Entretanto, o que se viu foram resultados extremamente áridos. Literalmente se caiu no perigo que o apóstolo Paulo já havia advertido na Segunda Carta aos Coríntios, cap. 3.6: “O qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. A exegese se apegou a tantos detalhes de somenos importância que em vez de resolver os problemas existentes acabou criando mais. Com isso a fé deixou de ser aprofundada para ser questionada. Isto produziu nas igrejas um vazio enorme, pois ao ouvirem algum estudioso bíblico ficavam com as perguntas que lhes eram mais importante : E daí? O que isso tem a ver comigo, com a minha fé? Como isso melhora meu relacionamento com Deus e o mundo à minha volta?
3) Como a exegese, com todas as suas ferramentas, não conseguiu fazer conexão, durante muito tempo, entre seus resultados e as necessidades espirituais das almas humanas, as pessoas começaram a se distanciar daquilo que antes havia sido celebrado com alegria, a leitura literal das Escrituras. Assim, começamos a ver na geração presente o ressurgimento da leitura alegórica, subjetiva, mas que fala ao coração. E à medida que a filosofia pós-moderna avança, rejeitando todos os absolutos e relativizando tudo, o estudo exegético passa a ser visto como algo desnecessário, pois quando muito, produzirá algo que não nos diz respeito. Há até mesmo aqueles que vêem nisso pura laboração humana sem nenhuma presença de Deus, portanto, “carnal”.
Esta leitura mística acabou por jogar fora “da bacia a água suja junto com a criança”. Todos os avanços que foram importantes para a solidificação da fé Protestante Evangélica foram simplesmente rejeitados. A concepção evangélica contemporânea não consegue ver nenhuma utilidade para o estudo textual, histórico, literário e filológico.
Por causa disso temos visto uma série de doutrinas heterodoxas surgirem no meio de nossas igrejas. Como exemplo podemos citar o controvertido ensino de David (Paul) Yong Cho sobre a distinção entre Logos e Rema, ou a releitura de Marcos 6.22 feita por Keneth Hagin onde afirma se tratar de uma tradução equivocada, onde o correto seria: “Tende a fé de Deus”.
Se por um lado o estudo exegético corre o risco de gerar uma fé árida, destituída de vida (podendo, inclusive, perder até mesmo a própria fé), por outro lado, a leitura mística corre o risco de nos conduzir a uma fé alienada da verdade revelada por Deus em suas Escrituras, gerando, por sua vez, uma vida desconexa à vontade de Deus.
Assim, cabe ao estudioso da Bíblia Sagrada conciliar dois clamores intratextuais:
1) Primeiro, a Bíblia requer obreiros preparados que saibam manejá-la bem (2 Tm 2.15), um dos traços distintivos entre o líder cristão e o mercenário (2 Co 2.17), a fim de evitar distorções da sua mensagem (2 Pe 3.15,16). É neste contexto que vemos a importância de um estudo abalizado que procure ouvir a voz do Senhor tal como nos foi revelada. Esta Palavra para ser bem manejada requer conhecimentos Históricos (pois o nosso Deus se fez conhecido na história da humanidade), Literários (pois Deus não anulou o escritor sagrado quando o inspirou, razões pelas quais encontramos diversos gêneros literários na Bíblia, os quais possuem características distintivas), e filológicos (pois Deus se fez ouvir através de línguas que nos são estranhas ou diferentes, entretanto, usuais quando de sua manifestação). Quando desprezamos estas coisas desprezamos a voz de Deus, e passamos a impor nossas vozes como a voz do Senhor.
2) Segundo, a Bíblia requer, também, que sua mensagem conduza o pecador à salvação e ao crescimento por meio do ensino, repreensão, correção, educação na justiça, a fim de que este seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm 3.14-17). Jesus nos disse: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39), portanto, o estudo das Escrituras tem que nos conduzir a vida eterna que está em Cristo.
Como dissemos no início, nossa geração tem desprezado o estudo sério das Escrituras e favorecido uma leitura subjetiva, alienante e mística da mesma. Com isso tem se desviado, em muito, das verdades eternas reveladas nas Sagradas Escrituras. Por isso, é mister, como ministros de Deus, chamados para o santo ofício da pregação e ensino de sua Palavra, resgatarmos a importância do estudo objetivo da Bíblia, desfazendo a insensatez daqueles que a distorcem para a perdição de quem os ouvem e os seguem. Entretanto, para isso, precisamos estar cientes de que a exegese deve ser encarada como ferramenta para aprofundamento da fé daquele que a utiliza e daquele que recebe os resultados do seu trabalho bíblico, e não como uma arma apontada contra a fé de nossos irmãos em Cristo.
Aplicate-te totalmente ao texto, aplica-o totalmente a ti.
(Johann Albrecht Bengel)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O CONHECIMENTO AUTÊNTICO DE DEUS

Em todo tempo, em todas as épocas, o ser humano se depara com uma grande indagação: como todas as coisas ao nosso redor (e também nós mesmos), vieram a existir? Neste campo, só duas respostas são viáveis: ou somos produto de uma criação, ou somos resultado do acaso.
Apesar do grande esforço dos evolucionistas para negar a existência de Deus e afirmarem o acaso, é interessante constatar que a população mundial continua crendo em Deus e no seu ato criador. Mais do que isto, por acreditarem que não somos resultado do acaso, as pessoas buscam alguma forma de aproximação de Deus, algum contato que renove suas vidas, lhes traga frescor numa sociedade egoísta e desumana na forma de se relacionar. Valorizamos as coisas e desprezamos as pessoas.
As formas de aproximação do divino são múltiplas e diversificadas. Para tanto, inúmeras são as religiões espalhadas pelo mundo com seus ritos sagrados que prometem levar seus seguidores a uma experiência única com o ser supremo, ou “força superior” como muitos preferem chamar a Deus.
Seja como for, estas experiências esbarram num problema básico que lhes impede a veracidade: todas elas partem da idéia de que o homem, por si mesmo, é capaz de desvendar o caminho para Deus e, por meio dos seus esforços, tornar-se merecedor de intimidade com ele.
Como seres finitos não temos como conhecer a Deus a partir de nós mesmos, nem por meio dos nossos esforços. Deus não é um ser atingível a nós por meio de nossas próprias percepções, pois nele se revela a infinitude do ser. E se não sabemos quem Ele de fato é, como é e como age, não temos como estabelecer ritos de aproximação que sejam eficientes. Entre o finito e o infinito há um grande abismo.
A Bíblia nos ensina que o conhecimento da existência de Deus que se vê em todas as culturas, em todas as épocas, resulta da semente religiosa plantada por Deus na criação ao nos fazer à sua imagem e semelhança. Todavia, tal percepção foi obscurecida pelo pecado, o que impede o ser humano de descrever Deus em seu ser e vontade.
Por causa disso, aprouve a Deus deixar na criação os sinais não somente de sua existência, mas, como diria o apóstolo Paulo, também de seus atributos invisíveis, bem como do seu eterno poder (Rm 1.20). Tal conhecimento resulta da ação do próprio Deus em revelar-se ao ser humano; todavia, tal conhecimento não é suficiente para nos fazer entrar numa relação de intimidade com o Senhor, pois não nos revela sua vontade e o caminho para ele.
Desta insuficiência da revelação geral, aquela que se vê na criação, surge a necessidade de uma revelação especial, que nos fale da vontade de Deus e do caminho que devemos trilhar para ele. Tal conhecimento é obtido por meio da Palavra de Deus. Por causa de sua imensa graça, o Senhor decidiu revelar-se por meio do registro escriturístico. Assim, entendemos quando Jesus nos ensina: Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna. Se o homem está morto nos seus pecados, como diz o apóstolo Paulo (Ef 2.1), então qualquer aproximação de Deus e intimidade com ele dependerá de uma regeneração em nossas vidas, algo que nos faça voltar a viver para, então, conhecermos a Deus. Ora, Cristo nos diz que as Escrituras nos apontam o caminho para o conhecimento de Deus.
Muitas pessoas entendem que o caminho para Deus, para a intimidade com ele, é descrito por meio da Bíblia; mas acabam confundindo a mensagem bíblica com ritos e regras, como se este fosse o caminho para Deus, e acabam tornando-se pessoas legalistas, sem misericórdia em seus corações.
A Bíblia é a revelação especial de Deus para que o conheçamos de uma forma profunda e íntima, mas não são as letras da Bíblia que fazem isto em nós, mas aquele para quem ela aponta: Jesus. Toda a Escritura, do começo ao fim, aponta para o Senhor Jesus como aquele que nos leva ao conhecimento vivo de Deus. De tal maneira que uma pessoa pode conhecer a Escritura por completo e não conhecer ao Deus do qual ela fala. Por outro lado, há aqueles que conhecem pouco das Escrituras, mas conhecem o Filho de Deus que lhes revela o Pai de uma forma doce e consoladora.
Conhecer a Deus será uma experiência fria, acadêmica e sem valor espiritual enquanto for mera discussão e descrição de conceitos. Mas será uma experiência viva quando cada conceito nos levar a Cristo e a ele entregarmos toda a nossa vida, em sincero arrependimento e fé.
Sabemos quem é Deus e qual a sua vontade quando conhecemos a Cristo por meio da regeneração que seu Espírito opera em nós. "Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo 14.9).

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

BÍBLIA: PALAVRA DE DEUS REVELADA À HUMANIDADE

“Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (Santo Agostinho, Confissões, 1). Assim descreve Santo Agostinho a odisséia do coração humano em relação a Deus. Odisséia que é percebida em todas as civilizações, em todos os tempos. Conhecer a Deus e desfrutar da sua comunhão, nesta vida e além da morte. Mas como conhecê-lo, como desfrutar da paz que a sua presença nos traz? Ao longo de sua história a humanidade tem respondido a isto de formas diferentes.
A primeira resposta contempla uma relação mística de conhecimento, o qual é alcançado por meio de rituais mágicos, manipulação de elementos da natureza, ou por meio de iniciações esotéricas. Não compreendem, os que buscam a Deus desta forma, que Ele, como Criador de tudo o que há no céu e na terra, transcende a Criação, e que esta pode apenas apontar para a realidade de sua existência e de seu grande poder (Romanos 1.18-23).
A segunda resposta contempla um conhecimento racional de Deus, fruto das observações e elucubrações humanas. Isto se fez sentir de uma forma muito real e forte entre os gregos no desenvolvimento de sua filosofia e também no Iluminismo do século XVIII. A razão humana determinaria a verdade sobre Deus. Esqueceram que o ser humano é criatura limitada em seus raciocínios e corrompidos pelo pecado, vivendo segundo a vaidade de seus pensamentos (Efésios 4.17,18).
Uma terceira resposta nos foi provida pelo próprio Deus: para conhecê-lo é necessário conhecer aquilo que Ele mesmo revela sobre si mesmo e sua vontade aos homens. Somente a auto-revelação divina nos livra do pecado da arrogância que julga ser capaz de manipular o Criador com seus rituais ou com seus sofismas teosóficos.
É por isso que para nós, cristãos, a Bíblia é o livro mais importante do mundo, pois ela se apresenta como revelação do próprio Deus aos homens quando diz que “Toda a Escritura é inspirada (grego theopneustos: soprada, dada) por Deus...” (2 Timóteo 3.16), e como tal, capaz de nos tornar “sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus” e capacitar-nos à perfeita boa obra por meio do ensino, repreensão, correção e educação na justiça” (2 Timóteo 3.14-17). Por isso Jesus nos ensinou: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim”. (Evangelho de João 5.39).
Como testemunha fiel desta verdade, temos o Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, o Logos (palavra) encarnado em nossa história o qual cumpriu toda a Escritura para satisfazer a justiça do Pai e nos libertar de todo o pecado que nos impedia de repousar nossos corações em Deus.
Assim, a Bíblia constitui para nós, todos os que cremos no amor salvífico de Jesus, a “única regra de fé e prática” (Confissão de Fé de Westminster, I.2).

sábado, 2 de agosto de 2008

FIRMANDO PROPÓSITOS ESPIRITUAIS PARA UMA VIDA DE SHALOM (III)

“Você tem que me amar, você tem que me amar, você tem que me amarrrrr”. Assim Baby Sauro, do seriado “Família Dinossauro”, se expressava quando se via ameaçado por algo de errado que havia feito. Na verdade, este grito é o grito de todos os corações humanos, pois lidamos constantemente com o medo da rejeição e da indiferença. Todavia, quando amor do outro se torna algo tão importante para nós, ao ponto de não vivermos sem, corremos o risco de nos entregarmos a todo tipo de situação, simplesmente, para não deixarmos de ser amados. Neste caso, o amor que se expressa na necessidade de aceitação do outro se torna para nós um altar idólatra, e sustentar um altar idólatra é muito caro, pois as exigências são muito grandes, às vezes implicando na renúncia da própria dignidade. Quantas pessoas conhecemos que se entregaram à situações humilhantes, simplesmente, porque não podiam conviver com a idéia da rejeição?
Por isso, o único amor capaz de nos trazer segurança é o amor de Deus, pois nos acolhe como somos e pela sua capacidade curadora transforma-nos dia-a-dia à imagem do Criador revelada em Jesus. Porém, para que o coração possa conhecer este amor que transforma e dá nova direção à vida é necessário conduzi-lo à instrução que vem do próprio Deus por meio da Sua Palavra. Por isso, Provérbios diz: “Filho meu, atenta...aos meus ensinamentos...guarda-os no mais íntimo do teu coração. Porque são vida para quem os acha e saúde para o seu corpo” (4.20,21).
O coração que ama, e tem necessidade de ser amado, será conduzido ou pelas emoções ou pela instrução franca da Palavra de Deus. Quando conduzido pelas emoções, ele se assenta num fundamento insólito, volúvel, pois as emoções vão e vem e, às vezes, se transformam num pesadelo. O amor que nossos corações necessitam exige segurança e as emoções não é o melhor lugar para encontrarmos isto, pois têm “data de validade”.
Agora, quando o amor é conduzido pela instrução franca da Palavra de Deus ele encontra a segurança que precisa, pois passa a conhecer os caminhos que deve trilhar, evitando a dor, o medo e a humilhação. A instrução de Deus se torna vida e saúde para todo o corpo.
Isto nos convida a rejeitarmos toda instrução que brote do coração; a rejeitarmos a premissa que diz: “faça aquilo que teu coração tem vontade de fazer”. O coração não é um guia sábio. O coração precisa ser instruído nos caminhos da vida para que de fato saiba o que é amor e não se perca no emaranhado das emoções.
Uma vida de shalom, de paz e bênção de Deus, só será possível se tivermos a coragem de tomarmos as rédeas dos nossos corações, ensinando-lhes o caminho que devem seguir, as decisões que precisam ser tomadas. E este caminho não é outro senão a Palavra de Deus: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os meus caminhos” (Sl 119.105). Que nossa oração neste seja: “Oh Deus, conduz meu coração segundo a tua Palavra, e não permitas que me perca no emaranhado de minhas emoções”.
Uma vida de shalom nos desafia a firmarmos propósitos espirituais que toquem em nossos corações, guardando-os do mal, entregando-os ao amor de Deus e instruindo-os no caminho da vida, a fim de que nossas decisões produzam frutos de alegria e paz, livrando-nos dos “cardos e abrolhos” (Gn 3.18) do pecado. Sh´lom Adonai (a paz do Senhor) seja com tua vida.

sábado, 26 de julho de 2008

SOB A CONDENAÇÃO DE DEUS E DOS HOMENS

A citação abaixo é extraída da obra "Reformed Dogmatics", v.III, de um grande teólogo reformado, Herman Bavinck. Que seja tão provocativo, abençoador e confortante para você, como foi para mim e minha esposa, Jhosy, quando lemos.

"Verdadeiramente não é apenas a Escritura que julga os humanos severamente. Os seres humanos pronunciaram os mais severos e duros julgamentos sobre si mesmos. É sempre melhor cair nas mãos do Senhor do que nas mãos do povo, porque a misericórdia do Senhor é grande. Quando Deus nos condena, Ele, ao mesmo tempo, oferece seu amor perdoador em Cristo, mas, quando as pessoas nos condenam, elas freqüentemente nos expulsam e fazem de nós objeto de escárnio. Quando Deus nos condena, seu juízo é expresso a nós por pessoas – profetas, apóstolos e ministros – que não se elevam a um nível acima de nós, mas se incluem conosco em uma confissão comum de culpa. Em contraste, filósofos e moralistas, menosprezando as pessoas, geralmente se esquecem de que eles também são humanos. Quando Deus condena, ele fala de pecado e culpa que, embora sejam grandes e pesados, podem ser removidos porque não pertencem à essência da humanidade. No entanto, os moralistas freqüentemente falam de tendências animais egoístas que pertencem aos seres humanos em virtude de sua origem e são parte de sua essência. Eles puxam as pessoas para baixo mas não as deixam subir. Se, pela origem, somos animais, por que, então, devemos viver como filhos de Deus?"

FIRMANDO PROPÓSITOS ESPIRITUAIS PARA UMA VIDA DE SHALOM (II)

Do coração procedem as fontes da vida, assim diz Provérbios 4.23. Uma vida de shalom, uma vida de paz que renove e transforme nossas histórias e relacionamentos, depende essencialmente, de sabermos cuidar do nosso coração a fim de evitarmos que suas fontes sejam contaminadas e contaminem a vida que dele jorra em nós. Mas como cuidar de um coração ao qual a Bíblia chama de “enganoso” e “corrupto”?
A psicologia moderna, principalmente na sua vertente de auto-ajuda, tem ensinado as pessoas a cuidarem dos seus corações deixando-os livres para fazerem aquilo que sentem vontade. Numa sociedade hedonista, onde o prazer é senhor que rege as decisões, parece ser sensato permitir ao coração fazer suas escolhas. Com isto, os limites se esvaem e cada um passa a fazer o que melhor lhe parece. Como conseqüência, passamos a conhecer uma sociedade sem rumo, sem perspectiva e que canta e dança com alegria a falta de caráter. Recentemente, em viagem para Fortaleza e Recife, ouvi algumas canções que embalam várias festas pelo país a fora que exaltam a promiscuidade, a embriaguez e o adultério, como se fossem atos nobres. Tudo isto feito em nome da liberdade do coração.
Observe, à medida que permitimos aos nossos corações tomarem decisões por si mesmos nossa sociedade, relacionamentos e vida apenas se afundam num poço profundo de vazio existencial. Por isso, a Bíblia insiste que o coração de fato é “corrupto”, ele ama o que não presta por causa da pecaminosidade que lhe é inerente. Como conseqüência disto, nossa história chafurda num caos profundo de desordem, desrespeito e falta de vergonha.
Como se vê, o caminho para um coração saudável não é dar-lhe o que deseja, mas oferecer-lhe o que ele necessita. E o que nossos corações necessitam é de amor genuíno (não ilusório) e orientação. Disto decorre a necessidade que temos de conhecer o amor de Deus, amor que transforma os nossos corações, nos dá uma nova maneira de sentir e de viver.
Todavia, o amor de Deus só pode ser conhecido a partir do momento que nossos corações lhe são entregues plenamente em confiança, por fé, na certeza de que o nosso Criador tem algo melhor e superior a nos oferecer. Assim, Provérbios insiste: “Filho meu, dá-me o teu coração”. Ou seja, o caminho não é entregar nossos corações àquilo que ele quer, ou deseja, mas entregar ao seu Criador, Aquele que o fez e bem o conhece. Por isso, Agostinho expressou, após ter vivido de tudo o que o pecado lhe oferecia: “Nossos corações só descansarão quando voltarem para ti mesmo, oh Deus, pois o fizeste com o tamanho exato de ti mesmo” (Confissões).
Vida de shalom depende de um coração em paz com Deus, em paz com seu Criador, pois Deus fez nossos corações para Si mesmo, e enquanto fugirmos do Criador somente experimentaremos sensações de paz, deixando de perceber que estas mesmas sensações criam vazios profundos dentro de nós. O que é real e verdadeiro é a paz que encontramos ao encontrarmo-nos com nosso Deus e Salvador, Jesus. Por isso, que nosso desejo seja de voltarmos nossos corações para Deus a fim de sermos curados e abençoados em nossa jornada. Provérbios diz: “Filho meu, dá-me o teu coração”. Que nossa oração por hoje seja: “Pai, eis o meu coração em tuas mãos, cumpre em mim o teu querer”. O querer de Deus e sua orientação entenderemos na próxima reflexão. Que Deus nos abençoe.

sábado, 19 de julho de 2008

FIRMANDO PROPÓSITOS PARA UMA VIDA DE SHALOM

Shalom é uma palavra hebraica muito usada pelos judeus para desejarem toda sorte bênçãos às pessoas a quem se ama. Todavia, shalom implica diretamente estarmos reconciliados com Deus e com o mundo criado por Ele a fim de melhor aproveitarmos as boas coisas que o Senhor nos ofereceu desde a criação.
Entendermos isto é importante para uma melhor compreensão da dinâmica dos nossos sonhos, anseios e expectativas, pois quaisquer que sejam só encontrarão plena satisfação em um coração que esteja em paz com Deus e com o mundo à sua volta.
Provérbios é um livro que tenta orientar-nos quanto a princípios espirituais que nos permitem viver a graça do shalom de Deus, fazendo-nos sábios em nossa jornada. E um dos temas favoritos do livro é o cuidado que precisamos ter com o nosso coração.
Na maioria das vezes quando a Bíblia adverte para termos cuidado com o nosso coração ela faz referência ao cerne de nossas decisões, ou seja, a vontade onde tudo se processa, nossos impulsos, sentimentos e imaginação. Por isso, o cuidado com o coração é essencial, pois nele se processam todas as nossas decisões morais e espirituais que conduzirão nossa vida e que trarão consigo suas conseqüências.
Partindo deste princípio Provérbios 4.23 primeiro adverte: “ Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração”. Este comentário nos lembra que nosso coração requer cuidados especiais, que precisa ser protegido, pois é suscetível a inúmeras situações que podem enganá-lo e machucá-lo. E uma vez enganado ou machucado o nosso coração nos conduz a um poço profundo de tristeza, amargura e solidão, roubando-nos a alegria de viver.
Guardar o coração implica em cuidado especial, mas também implica em limites. O coração é, por natureza, carente: carente de Deus e carente de alguém com quem compartilhar a jornada da vida. Por isso, nos permitimos, muitas vezes, experimentar coisas novas como uma forma de suprir carências mais profundas dentro de nós, e quando isto é guiado pelo coração inevitavelmente nos machucamos.
Infelizmente nossa sociedade pensa diferente desta orientação bíblica, dizendo-nos que devemos seguir e fazer aquilo que o nosso coração deseja, aquilo que lhe dá prazer. Não percebem que muitas vezes reprimimos nossos impulsos e desejos por sabermos que são maus. Quantas vezes já sentimos vontade de descarregar ira sobre alguém, ou mesmo agredir, como forma de estravasar nossos temores, inseguranças ou mágoas? Todavia, por várias vezes reprimimos tais atos por entendermos que o desejo do coração só nos machucaria mais.
Provérbios 4.23 não nos ensina que nossos corações são nossos guias, antes pelo contrário, nos ensina a guiá-los, orientá-los. Mas tudo isto tem uma preocupação: é do nosso coração que procedem, brotam, as fontes da vida. Assim, o cuidado e os limites devem ser efetivos e claros para que as fontes da vida não sejam contaminadas e poluídas por sentimentos enganosos que nos conduzem a perdição.
Um coração bem cuidado e protegido fará jorrar em nós alegria perene, shalom de Deus que nos conduzirá em paz com o nosso próprio Criador e com o mundo que Ele criou para sua glória e o nosso próprio bem. Todavia, como cuidar bem do coração e protegê-lo das ciladas da vida? Pensemos sobre isto na próxima reflexão, com a graça de Deus. Por hoje nos basta pedir: “Cria em mim, oh Deus, um coração puro e renova dentro em mim um espírito inabalável” (Sl 51.10), para que minha vida seja uma vida de shalom