segunda-feira, 31 de agosto de 2009

VIDAS QUE PERMANECEM EM TEMPOS DE SOFRIMENTO - Parte II - Jó 1.6-12; 2.1-10

Conheci uma mulher admirável, por diversas razões. Mas a sua história de vida, pra mim, sempre foi um exemplo. Ela nasceu numa família rica, bem-sucedida, em Icoaraci-PA. Seu pai era um rico comerciante, nas décadas de 60 e 70. Além disso, formavam uma família muito religiosa. Mas um dia, seu pai deixou a família, pois havia se envolvido com outra mulher.
Na relação extraconjugal, gastou o dinheiro da família, e aquela mulher admirável teve seu primeiro embate com a vida desumana. Foi dormir como uma princesa, e acordou como uma plebeia. Seu pai, depois de um tempo, voltou para casa, foi perdoado por sua mulher (outra mulher admirável), mas voltava com as mãos vazias. Perdera tudo.
Sua filha saiu para a vida, foi batalhar por sua formação, seu ganha pão. Um dia, decidiu partir para Macapá-AP, e ali foi trabalhar, longe de sua família. Algum tempo depois, conheceu um homem cristão, e casou com ele. Pouco tempo depois de casada, conheceu o amor de Cristo e se converteu.
Juntamente com seu marido, começaram a construir uma família maravilhosa, e prosperaram juntos. Chegaram a ter tudo que queriam. Viviam uma vida abastada. Parecia que sua história estava sendo recontada. E realmente estava. Depois de quase 15 anos de casada, com a família estabilizada, as finanças prosperando, seu marido a deixou e juntou-se a outra mulher, deixando-a sem nada (a não ser dívidas), e quatro filhos para criar.
Vi de perto o sofrimento desta mulher; quantas vezes chorei com ela; quantas vezes a vi chegar em casa com o pagamento e separá-lo para entregar ao agiota. Vi esta mulher trabalhar manhã, tarde e noite para que seus filhos tivessem o que comer, vestir e brincar (pois seu marido havia levado tudo e nunca se preocupou em ajudar-lhe, financeiramente, na educação dos filhos). Vi pessoas que a julgaram, a condenaram e tentaram lhe humilhar (apenas tentaram, pois aquela mulher era uma guerreira, e não deixava que à pisassem).
Em meio a tudo isto, vi uma mulher que com toda a dor soube perdoar seu agressor, soube sacrificar de si mesma por amor aos filhos, e, acima de tudo, soube conduzi-los no caminho de Deus, sem que estes guardassem revolta contra o seu Criador, e nem mesmo contra seu pai.
Esta mulher era minha mãe, Leonor Vasconcelos Barboza, mulher de quem muito me orgulho de ser filho. Mulher que marcou profundamente a minha vida e que me ensinou a sobreviver em meio às dores, às perdas e fracassos.
Conto esta história porque ela se confunde com a experiência de Jó naquilo que quero destacar nesta mensagem. No sermão anterior começamos a estudar a vida deste homem a fim de aprendermos lições, a partir do que ele sofreu, que nos ajudem a permanecer firmes, mesmo quando o sofrimento é grande, a dor é intensa e a vida perde a sua beleza de ser. Aprendemos, em primeiro lugar, que a vida que é capaz de permanecer em tempos de sofrimento é marcada pela integridade sincera, autêntica (1.1).
Hoje, tomando o texto base, aprenderemos outra lição importante. No texto citado (Jó 1.6-12; 2.1-10), encontramos o diálogo de Deus com o anjo “promotor” da corte celeste (1.6). O assunto é apresentado por Deus. Depois de uma pequena introdução na conversa (v.9), Deus faz uma pergunta que expressa uma alegria profunda do seu coração. O Soberano Senhor pergunta ao anjo: “Observaste a meu servo Jó? E em seguida, Ele faz um elogio à conduta de Jó, dizendo: “porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal”.
Ao ouvir tais palavras, o anjo da corte contra-ataca, afirmando que Jó não temia a Deus em vão, uma vez que o Senhor o havia protegido e abençoado. Havia lha dado segurança. Esta afirmação fica clara no versículo 10, quando o anjo diz: “Acaso não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra”.
A palavra que o anjo usa para expressar a segurança que Deus havia dado a Jó é “sebe”. Sebe é uma vedação feita de ramos ou varas entrelaçadas que, no mundo antigo, servia de proteção de propriedades. O que o anjo procurava mostrar a Deus era que a religiosidade de Jó era falsa, que ele só queria tirar proveito daquilo, uma vez que ele sabia que enquanto permanecesse íntegro, o Senhor continuaria protegendo-o e abençoando-o.
Bem, esta é uma questão muito séria que precisamos refletir: o que motiva nossa religiosidade? Por qual motivo frequento minha igreja? Sou motivado pelo desejo sincero de adorar a Deus ou busco somente cumprir meus deveres cristãos a fim de que Deus me abençoe?
Muitos têm vivido uma religiosidade vã, falsa, hipócrita, pois vivem em função de seus próprios interesses. Enquanto Deus me abençoar, mantenho-me fiel a Ele; no entanto, se eu não for abençoado, viro-Lhe as costas. É assim que muitos vivem a sua relação de fé com Deus. E era isto que o anjo acusava Jó. Certo disso, ele desafia ao Senhor a tocar em tudo o que Jó tinha, objetivando prová-lo (v.11). Deus, então, permite a prova. A proteção foi tirada, não havia mais segurança para o sustento da fé. Os bens e a família foram tocados; posteriormente, cap. 2.6, Deus retira, parcialmente, sua proteção sobre a vida de Jó, sem permitir que esta lhe seja tirada.
De repente, aquele homem perdeu todos os seus bens, todos os seus filhos e vê sua saúde ser agravada por uma horrível enfermidade. Diante de tanto sofrimento, aquele homem permanece firme, sofrendo, sim, mas sem perder sua integridade.
Neste cenário aprendemos uma segunda lição. Vida que permanece em tempos de sofrimento é marcada por uma segurança de vida que transcende as circunstâncias.
Jó viu tudo desabar, de uma hora para outra, em sua vida. A impressão que ficava, diante desta reviravolta de vida, era a de que Deus o havia abandonado e removido a sebe de sua vida; parecia que Deus havia removido a segurança, a proteção, daquele homem. Mas em que consistia a segurança de Jó?
No diálogo entre o anjo e Deus, o ataque se foca em três áreas específicas da vida de Jó, nas quais o anjo apostava suas fichas como sendo as que mantinham Jó fiel ao seu Deus. E de certa forma, estas áreas são a razão de ser e de viver das pessoas. Assim, se a segurança de Jó estivesse em uma delas, toda a sua piedade, desprovida de interesse, seria desmascarada. Todavia, isto não aconteceu.
Acontece que estas áreas, às vezes, são altares de idolatria que erguemos em nossos corações, e por isso, quando o altar é derrubado, os que sustentam o altar caem junto com ele. Assim, convém examinar aquilo que para muitas pessoas é a razão de ser e viver dos seus corações, e que lhes fazem pisar em terreno insólito.
A primeira área atacada pelo anjo “promotor” foi a dos bens de Jó (1.13-17).
Como vimos anteriormente, Jó era um homem muito rico. Tal era a sua riqueza que em 1.3 se diz que ele “era o maior de todos os do oriente”. De onde procede esta declaração? Da descrição feita de que ele possuía 7 mil ovelhas, 3 mil camelos, 500 juntas de bois e 500 jumentas, além de empregados. Em nossa sociedade, este capital pode parecer pequeno, mas lembre-se que a história de Jó aconteceu por volta da época dos patriarcas do Antigo Testamento (2000-1800 a.C.). Nesta época, este patrimônio era uma fortuna. Para que você entenda: até alguns anos atrás, os filmes americanos falavam de assaltos a bancos ou trens pagadores que carregavam a fortuna de meio milhão de dólares, ou hum milhão dólares. Naquela época, isto era uma fortuna para os padrões americanos. Hoje, estas quantias são irrisórias para os milionários. Assim era a fortuna de Jó, algo grandioso para sua geração.
Diante da constatação da riqueza de Jó, o anjo da corte celeste começa a execução da prova, atacando, primeiramente, todos os seus bens. A prova se caracteriza pela sequência sucessiva de ataque. Primeiro, ele acabou com os bois e as jumentas (1.14); depois, eliminou as ovelhas e os servos (v.16); e, por último, matou os camelos, juntamente com os servos que cuidavam dos animais (v.17).
Os bens foram dizimados paulatinamente e sequencialmente, não dando tempo para Jó se recompor. A ideia era de infringir uma dor crescente, até o ponto daquele homem não suportar mais e blasfemar contra Deus. Observe que em cada notícia se diz: “falava este ainda quando”.
Mas o que é surpreendente é que, apesar das desgraças caírem uma após a outra sobre ele, não o encontramos, em lugar nenhum, se queixando ou lamuriando por haver perdido seus bens. Jó suportou todos aqueles baques, mantendo a fé em Deus. Qual a razão? Simples, sua segurança não estava baseada em seus bens, em sua riqueza.
Infelizmente, vivemos numa sociedade capitalista onde o bem-estar e o sucesso são medidos pelo que as pessoas têm. Assim, criamos uma falsa segurança de valor, depositando nossa esperança e felicidade naquilo que possuímos.
Se não bastasse isto, as igrejas evangélicas aderiram, na sua maioria, o discurso materialista de que as pessoas só podem ser felizes se tiverem uma bela casa para morar, o carro do ano, uma poupança recheada, um emprego importante, etc. Esta mensagem diabólica adentrou a igreja por meio da tão diabólica mensagem da teologia da prosperidade.
Uma sociedade capitalista e uma igreja mesquinha, soberba quanto ao ter, levaram as pessoas a depositarem sua confiança de vida no que possuem. E assim, se tornam presas fáceis das tempestades da vida. Ao colocarem sua confiança na riqueza, perderam o coração, e conquentemente, a razão de viver, pois a razão de ser e viver não se pauta no ter.
Precisamos deixar claro que a vida que permanece em tempos de sofrimento é marcada por uma segurança que transcende as circunstâncias. Bens materiais não dão segurança a ninguém, a não ser de forma ilusória, pois estão presos ao tempo e suas variações.
Tudo o que possuímos é passageiro, assim como nossa vida; por isso, a razão do nosso viver não pode estar apegada ao que temos ou deixamos de ter. De repente, podemos perder tudo o que temos, e se as nossas vidas estiverem fundamentadas no que possuímos, nos bens que adquirimos, não nos resultará outra coisa a não ser a desesperança.
Quero, então, chamar a sua atenção para a seguinte pergunta: não vale a sua vida muito mais do que os bens que você possui? É claro que sim. Por isso, não podemos, nem devemos, criar uma segurança alicerçada em nossos bens. Valemos muito mais do que temos ou deixamos de ter. O que possuímos é passageiro, nós somos imortais. Riquezas e bens não transcendem as circunstâncias da vida, antes, lhes são sujeitas de formas diversas.
Jó pôde permanecer firme diante do sofrimento porque a segurança de sua vida não estava alicerçada nos bens que possuía; sua segurança transcendia qualquer situação.
Qual a segurança de sua vida? Os fundamentos da sua vida transcendem as circunstâncias, ou são limitados, passageiros? Saiba que isto determina o tipo de vida que você leva, e, talvez, aí esteja um sério problema que o impede de viver saudavelmente, mesmo quando viver parece ser fácil.
Voltando à narrativa, vemos que o “anjo promotor” não se conteve no ataque. Para que o pobre Jó não tivesse chance de sobreviver ao sofrimento, de imediato lança-se uma nova desgraça (na sequência seria a quarta, sendo 3 sobre os bens), a morte dos seus filhos. Com isto, a segunda área focada foi a família (1.18,19).
Jó era um homem que tinha uma família que era considerada “ideal” para a sua época. Diz o versículo 2, do capítulo 1, que ele tinha sete filhos e três filhas. Como já consideramos, anteriormente, estes números expressavam a ideia de perfeição na mentalidade oriental. Isto porque, estes números, 7 e 3, eram tidos como perfeitos, símbolos de plenitude. Se não bastasse, a soma deles, 10, também era considerado pleno no mundo antigo. Ou seja, sob todos os prismas, até mesmo os esotéricos, isto era algo invejável.
Além disso, o v.4, do mesmo capítulo, mostra que havia união e amor naquela família. Tudo indica que era costume, entre os irmãos e irmãs, se reunirem para festejar a vida. Não havia problemas interpessoais naquele lar.
Por fim, vemos, no v.5, Jó como um pai exemplar. Diz o texto que, após os dias de festas, Jó reunia seus filhos para os santificar, tal era a sua preocupação com seus filhos, tal era o seu amor para com eles. E Jó levantava-se de madrugada para oferecer estes sacrifícios, pois temia que seus filhos pecassem contra o Senhor, e se isso ocorresse sobreviria sobre seus filhos a ira de Deus.
Como se vê, este homem tinha uma família e tanto. Porém, o anjo atacou duramente a Jó, matando a todos os seus filhos. E é interessante observar que isto ocorreu de repente, e todos morreram de uma só vez.
Agora, tente imaginar o sofrimento que se alojou no coração deste pai ao receber a notícia da morte dos seus filhos. Lembre-se que Jó era um pai que não media esforços por seus filhos, pois os amava demais.
Eu levei muito tempo para conhecer a bênção de ser pai. Por motivos egoístas do meu coração, adiei esta experiência maravilhosa. Meu mundo teve que ruir, meu coração se perder, para se reencontrar, a fim de descobrir a bênção da paternidade. Hoje, tenho um filho lindo, maravilhoso. E quando leio a história de Jó fico imaginando a intensidade da dor se eu tivesse de perder meu filho. Agora, Jó tinha 10 filhos maravilhosos a quem ela amava demais, e de repente, todos morreram. Então, não consigo imaginar plenamente a dor, pois se a perda de um único filho já seria insuportável, imagino a perda de todos.
Pois bem, apesar de toda esta dor insuportável, todo este sofrimento dantesco, em momento algum Jó pecou. Em momento algum perdeu a sua fé. Em momento algum se voltou contra Deus. Estava sofrendo? Sim, estava. Mas não blasfemou contra Deus.
O que fazia que aquele homem permanecesse íntegro? A questão é que a família de Jó não era o alicerce de sua vida. A sua vida não estava fundamentada em sua família. Esta não representava a segurança do seu viver.
Este, com certeza, é um ponto muito difícil para nós, pois somos criados para depositar em nossas famílias o alicerce da nossa existência. E quando esta nos falta, temos a tendência nos rendermos às dificuldades da vida, tomando caminhos de ruína e destruição. Não são poucos os casos de pessoas que ao perderem um ente querido, perderam também os sonhos, as motivações e esperanças de vida. E o que é pior, muitos perderam a própria integridade.
Por isso, tendo por certos que o sofrimento é inevitável, precisamos reaprender que a família não é a base de segurança do nosso viver; que a nossa família não é, nem pode ser tudo para nós. A família pode e deve ser um porto seguro para muitos momentos difíceis da nossa jornada. Mas os portos também estão sujeitos à tempestades, e por causa destas, também são destruídos. Assim, não podemos focar a travessia a partir do porto, mas a partir do destino que queremos alcançar.
Por favor, entenda, não estou dizendo que devemos rejeitar ou desprezar o nosso lar, não. O que estou tentando dizer é que nossos familiares não podem ser a motivação do nosso viver. Lembre-se, Jó amava demais a seus filhos, a ponto de levantar de madrugada (friso isso porque sei o que é levantar de madrugada e quanto isto é difícil), para os santificar. No entanto, eles não eram a motivação e a razão de ser de sua vida.
Quando vejo o exemplo amoroso de Jó, me pergunto o quanto amo ao meu filho, pois quais os sacrifícios espirituais que tenho feito por ele? Sinceramente, conheço pouquíssimos pais que se importam, verdadeiramente, com o bem espiritual de sua descendência, sacrificando de si mesmo por ela. Quantos pais costumam santificar aos seus filhos lendo a Bíblia com eles, orando ou, até mesmo, conversando? Todavia, colocamos nossos filhos como ídolos de nós mesmos, nos projetando neles.
Diante da dor de Jó descobrimos uma razão muito forte pela qual não podemos fazer do nosso lar a base de nossa existência: não somos donos, nem senhores do nosso lar. Se temos, hoje, uma família é porque Deus nos concedeu, mas não somos donos dela, somos mordomos do Criador em nosso lar.
O salmo 127.3 descortina isto diante de nós quando diz: “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão”. Segundo este salmo, os filhos são herança, mas não são nossos. O Senhor os dá para que os pais cuidem deles para o próprio Deus. No entanto, os filhos têm sido, muitas vezes, a razão de existência para muitos, contrariando o ensino das Escrituras Sagradas, que os coloca como herança do Senhor.
Outra razão para que não façamos de nossa família a razão de ser da nossa existência é que, assim como nós, nossos familiares estão sujeitos às circunstâncias da vida, não transcendendo as dificuldades nem o tempo. Por isso, nós não podemos colocar a segurança de nossas vidas, a razão de nossa existência em nossos familiares, pois eles também são suscetíveis às agruras da vida. Eles passam, assim como nós passamos. Eles são mortais, assim como nós também o somos.
Por fim, não podemos construir o fundamento de nossa existência por uma razão escatológica importante: nossos laços familiares são restritos a esta vida. Na eternidade não existirá relações de parentesco. Assim, quando sofremos pela perda de uma familiar, devemos agradecer a Deus pela oportunidade de servir a Deus através daquela vida, e também pela alegria do vínculo de parentesco. Porém, precisamos ter a consciência de que tal vínculo se finda ali, na morte.
Sei que este ponto é muito delicado, posso parecer insensível, mas sei quanto me custaria a perda do meu filho ou da minha amada esposa. Porém, sabendo que as circunstâncias na vida são instáveis e passageiras, preciso ensinar ao meu coração as perspectivas corretas sobre minha relação familiar, a fim de sobreviver aos tempos de sofrimento.
Vida que permanece em tempos de sofrimento é marcada pela segurança que transcende as circunstâncias, e a família não transcende as circunstâncias, estando sujeita à elas.
Por fim, vendo que a perda dos bens e da família não abalaram a fé e a integridade de Jó, ainda que tivessem abalado suas emoções, o anjo promotor parte para o ataque pessoal, e a saúde de Jó é tocada de forma dura.
Percebe-se, claramente, em 2.4 que o anjo aposta tudo, agora, na vida de Jó, no sentido de roubar-lhe a saúde e, assim, fazê-lo fracassar em sua integridade. Observem o que é dito neste versículo: “Então, o anjo-promotor respondeu ao Senhor: pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida”.
Estas palavras revelam que, para o anjo, a razão da vida estava no próprio ato de viver, e se isso fosse ameaçado, o homem apostaria em tudo que lhe pudesse restaurar a saúde. Como se vê em nossos dias, esta verdade apontada no versículo continua presente. E em nome da saúde milhares de pessoas tem vendido a sua alma por um tempo tão passageiro, diante da eternidade.
Mas a armadilha não deu certo, pois Jó não blasfemou contra Deus. Manteve-se íntegro, manteve-se firma, mesmo sofrendo, porque sua vida não era tudo, viver não era o mais importante, sua segurança não estava depositada na transitoriedade da vida.
Agora, pense um pouco sobre a razão de vida de muitos. É impressionante o número de pessoas que vivem em função de sua própria existência. São pessoas que não admitem a possibilidade da morte, ou se fazem de desentendidas quanto ao assunto, porque para elas o viver é tudo, é o mais importante. Essas pessoas valorizam a tal ponto suas próprias vidas, seus prazeres, fazendo-as a razão plena da existência, que não admitem qualquer possibilidade de enfermidade; e se isto acontece, “Deus não é justo”, segundo a cosmovisão que adotaram.
É preciso que voltemos à ideia de que a vida que permanece em tempos de sofrimento é marcada por uma segurança que transcende as circunstâncias, e nós não transcendemos as circunstâncias. Assim como tudo passa, também passaremos. Podemos até ser curados de alguma enfermidade, mas isto não evitará que, mais cedo ou mais tarde, morramos.
Se nossas vidas estivessem acima das circunstâncias, então, sofreríamos com sobriedade, sabendo suportar os reveses do tempo. Estamos sujeitos a todas as variações do cotidiano, e quando nossa vida é atingida por tais variações nós sofremos, e a vida só continua a fazer sentido quando não calcamos nossa segurança em nós mesmos, em nossas próprias forças.
Você, a esta altura, deve estar se perguntando: já que meus bens, minha família e minha própria vida não me proporcionam segurança para viver, o que, então, pode me dar segurança?
Só uma pessoa transcende as circunstâncias da vida, as vicissitudes do dia-a-dia: Deus, em Cristo Jesus, seu Filho amado. Por isso, é importante que Deus seja nossa razão de vida. Deus tem que estar acima de tudo e de todos. Se isso não ocorre em nossas vidas nos tornamos sujeitos a perda do sentido de viver, pois seja qual for a nossa motivação, ela estará sujeita às circunstâncias instáveis da jornada.
Somente Deus transcende o tempo, o espaço, as circunstâncias e suas variações. Assim, Ele se fez homem, transcendo todas as dimensões possíveis, a fim de que olhássemos para Ele, através de Jesus, e fôssemos curados. Por isso, Ele precisa ser a razão de nossas vidas, o primeiro e o último; o bem mais precioso que possuímos; o relacionamento familiar (por isso o chamamos de Pai e a Cristo de nosso irmão), mais doce e singelo no qual nos envolvemos e entregamos o coração; a razão de viver essencial.
Vida que permanece em tempos de sofrimento é marcada por uma segurança que transcende as circunstâncias, e somente Deus, em Cristo, é capaz de transcender o tempo, o espaço e as variações da vida. Aleluia! Amém.

2 comentários:

RÓGER disse...

Sabe, querido pastor, é interessante e motivador vê-lo escrever assim. Parece-me que é algo externado por alguém que viveu, ainda que parcialmente. Gostaria - isso é uma discussão que já tivemos, mas pode ser interessante para outras pessoas - que o sr. esclarecesse sobre a pessoa de Jó. Existem pessoas que afirmam ser Jó um homem exemplo (figura ideal) na visão de Moisés, para estimular o povo a ser fiel ao seu Deus. Assim como na filosofia existem alguns que dizem que Sócrates é a figura ideal criada por Platão. Se for possível, esclareça essa possível dúvida: Jó, de fato, é um homem histórico? Grande abraço.

Airton Williams disse...

grande roger, obrigado, mais uma vez, pelas palavras de incentivo. sobre tua questão sobre quem foi Jó, do ponto de vista histórico, colocarei um post sobre o assunto, pois achei muito relevante tua observação. ainda nesta semana colocarei. um forte abraço.