terça-feira, 18 de agosto de 2009

QUEM É SATAN, NO LIVRO DE JÓ?

Neste mês de agosto, 2009, comecei a pregar sobre a questão do sofrimento na igreja que pastoreio, a Episcopal Carismática de Brasília. Estamos meditando a partir do livro de Jó. Todavia, para uma correta compreensão do livro e de sua mensagem, é necessário desmistificar a figura de satan na história. Antes, gostaria de deixar claro que creio na existência de Satanás e no seu poder (ainda que limitado) para enganar e aprisionar as almas. Assim, creio em possessão demoníaca, opressão maligna, e todas as demais coisas que a fé cristã tem declarado, historicamente, sobre a ação do diabo. Isto, porém, não me obriga a ver o diabo em todo lugar da Bíblia e a interpretar o termo satan como Satanás quando, claramente, o texto não o afirma.
A fim de evitar que você se perca nas meditações sobre o sofrimento, decidi postar este artigo antes, para que a leitura, posterior, flua melhor. Aqui, pretendo demonstrar porque satan, em Jó (e que fique bem claro isto, no livro de Jó), não refere-se a Satanás, mas a um anjo da corte celeste, cuja função é a execução punitiva da vontade do SENHOR e por à prova o coração dos homens diante de Deus. Há 8 pontos para serem ponderados:
1. Do ponto de vista linguístico, temos um sério problema. O termo satan, em hebraico, é precedido de um artigo, lendo-se, neste caso, hasatan. Ora, quem conhece hebraico sabe que, neste caso, não se trata de nome próprio, mas de um título que exige tradução, sendo esta a de “acusador”. Porque estamos acostumados a ver o diabo como “acusador”, interpretamos a passagem, imediatamente, como se referindo a ele. Acontece que no Antigo Testamento há um anjo da corte celeste que recebe este título também por causa de sua função, uma espécie de “promotor” da corte. Além disso, ele se faz presente no Êxodo (na matança dos primogênitos), com Saul (atormentando sua vida), no censo de Davi, e na corte, novamente, acusando o sacerdote Josué (Zacarias 3.1).
2. Em 1.6 se diz: “Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também satan entre eles”. Observe que o texto afirma, “entre eles”. Talvez isto não fique claro para você, mas em hebraico a ideia refere-se a alguém daquele grupo. Ou seja, satan era contado entre os filhos de Deus, expressão que se referia aos anjos dos céus (é importante observar que filhos de Deus aqui em Jó não é a mesma coisa que filhos de Deus em Gênesis 6.2, o qual diz respeito à descendência adâmica).
3. Do ponto de vista teológico, surge outra questão. Se satan, em Jó, fosse Satanás, teríamos uma situação complicada, pois nesta ocasião este já teria sido expulso dos céus por causa de sua rebelião. Em 2.1 este satan volta a se apresentar diante de Deus com os demais anjos. Se ele foi expulso do céu, de onde vem esta liberdade para ficar entrando no céu sem reprimenda de Deus? Muitos teólogos falam da “vontade permissiva de Deus”, mas esta é uma dedução que não pode ser tirada do texto, pois o mesmo nada fala desta vontade. A leitura natural do texto é que tal figura era um anjo da corte, e não o inimigo de Deus e de nossas almas, o diabo.
4. Em 1.19 se fala de fenômenos da natureza que teriam provocado a morte dos filhos e filhas de Jó. Neste sentido, toda a teologia bíblica afirma que tal poder sobre a natureza somente Deus tem. É por isso que os discípulos ficam assustados quando Jesus manda o vento e o mar acalmarem.
5. Do ponto de vista literário, o sofrimento de Jó, em momento algum, é atribuído ao diabo, mas a Deus. Quando todos os males vêm sobre Jó, sua mulher ataca sua integridade diante dos males e recebe como resposta: “falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10). Observe, Jó tem como certo que o mal, sofrimento, que recebe vem de Deus, e não do diabo.
6. Os amigos de Jó em momento algum cogitam da possibilidade daquele mal vir de Satanás, mas em todo momento entendem que procede de Deus por causa de algum pecado de Jó.
7. A partir do capítulo 38 Deus entra em cena e assume para si toda a situação manifestando sua soberania. Novamente, nenhuma acusação é feita a Satanás.
8. No final do livro, cap. 42, a sorte de Jó é mudada, e por isso, seus parentes vem festejar com ele. No v.11 se diz: “Então, vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quanto dantes o conheceram, e comeram dele, e o consolaram de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado”. Observe, o mal, sofrimento, é atribuído a Deus, e em momento algum se fala do diabo.
Não estou fazendo uma apologia do diabo, não. Apenas estou fazendo uma análise literária e lexicográfica do sentido de satan, em Jó. E neste sentido, o termo refere-se ao anjo da corte celeste. Por que este entendimento é importante?
1. Porque desmistifica as elucubrações e devaneios dos proponentes da “batalha espiritual” que fica atribuindo ao diabo mais poder do que, de fato, ele tem.
2. Porque desfaz a teologia maniqueísta de que Deus e o diabo estão num confronto por representarem forças iguais. O diabo, de si mesmo, nada mais é do que um ser vencido pelo sangue do Cordeiro, o nosso Senhor e Salvador Jesus.
3. Porque nos ajuda a entender a soberania e a natureza de Deus em meio ao sofrimento. O nosso Senhor não é escravo da nossa vontade, podendo dar-nos tanto o bem quanto o mal, do jeito que quiser e quando desejar, visando o nosso crescimento.
Creio que a partir deste entendimento o livro de Jó se mostra mais encantador, pois nos revela um Deus soberano, amado não pelo que dá aos seus servos, mas pelo que é, Senhor e galardoador da vida. Com este entendimento, convido-o a ler as mensagens que serão postadas nas próximas semanas. E caso queira ouvir a pregação, basta acessar: www.episcopaldf.blogspot.com
A paz de Cristo.
Pr. Airton Williams

15 comentários:

Adriano disse...

muito bom,ainda nao tinha pensado sobre isso.

Anônimo disse...

Que estudo lindo!!!

Airton Williams disse...

Grande Adriano, beleza? espero que os próximos posts tornem mais claro as verdades sobre o sofrimento. abraços.

Airton Williams disse...

meu irmão anônimo, fico feliz que o estudo tenha sido edificante para sua vida. ao locar fiquei com medo de ser mal intepretado, mas era necessário expor para que os demais posts fiquem claros. um abraço.

Anônimo disse...

Oi Pastor,

Não tenha medo de ser mal interpretado, pois afinal as perguntas estão aí mesmo para esclarecerem as dúvidas. Continue postando os estudos, agradecemos. Abraço Sérgio Simões

Airton Williams disse...

Grande Sérgio, que bom saber que vc é o "anônimo". estamos vivendo um momento especial com a igreja, aqui. estas mensagens estão chegando a várias pessoas e que nos tem dado um feedback muito acolhedor. neste blog colocarei o texto escrito das mensagens, e no blog da igreja o aúdio e vídeo das mensagens. um forte abraço para vc e sua família, a qual amo muito.

RÓGER disse...

Muito bom, pr. airton. Como já havíamos discutido esse tema no curso da wesleiana, não tive maiores problemas de entendimento. Concordo plenamente contigo, principalmente quando discorre sobre a soberania de Deus. Grande abraço.

Airton Williams disse...

grande roger, nossa conversa sobre o tema foi legal. agradeço o comentário no blog. tenho certeza que teremos um excelente aluno no programa de mestrado em hermenêutica. abraços.

Sergio Simoes disse...

Oi Pastor,

O primeiro anônimo foi a Miriam e eu vim depois. Mas agora já criei uma conta para facilitar a identificação. O garotinho está lindo!!
Um abraço,

Airton Williams disse...

Grande Sérgio, beleza? realmente, arthur está lindo, muito fofo. estamos com saudade de vcs. um forte abraço.

MISSIONARIO disse...

A PAZ DE CRISTO MEU PR , ESTA NOTA É UMA BENÇÃO E MUITO IMPORTANTE PARA A IGREJA DO SENHOR NESSES DIAS NEBULOSOS , PARA MIM É UM PRAZER PODER APRENDER MAIS DA PALAVRA DE DEUS NA SEBI , QUE O SENHOR JESUS CONTINUE TE ABENÇOANDO.
ALEXANDER P . DOS SANTOS

MISSIONARIO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Murilo Augusto disse...

Texto Fantástico e Esclarecedor, Nos Mostra A SOBERANIA Eterna de Deus! Grande Abraço Pastor!

Forista Exegese disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marcilio disse...

Muito esclarecedor este post