"Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (Mt 22.37-40).
O mundo à nossa volta está promovendo o amor-próprio e a auto-estima. A auto-estima é um aspecto popular da psicologia humanista, que é baseada na crença de que todos nós nascemos bons e que a sociedade é a culpada. Esse sistema coloca o homem como a medida de todas as coisas. A ênfase no ego é exatamente o que começou no Jardim do Éden e se intensifica através dos ensinos humanísticos do amor-próprio, da auto-estima, da auto-realização e auto-etc. Promovendo a auto-estima, a Força-Tarefa Pela Auto-Estima na Califórnia foi a grande responsável por introduzir a ideologia e psicologia humanista nos setores público e privado. (É interessante notar que, em meados de 1988, a Força-Tarefa prestou tributo ao rei da auto-estima, James Dobson, destacando-o em seu boletim informativo. Além disso, seu livro Hide and Seek aparece na lista de leitura deles).
A influência da Comissão Pela Auto-Estima na Califórnia se espalhou pelos EUA. John Vasconcellos promoveu uma iniciativa em âmbito nacional sobre a auto-estima, semelhante à que introduziu na Califórnia. Vasconcellos deixou muito claro que o movimento da auto-estima deveria operar, como tem feito, contra o ensino que ele considerava antiquado, ou seja, que o homem é um pecador. Segundo ele, havia uma dupla visão da humanidade no país: (1) o homem como sendo pecador, e (2) como intrinsecamente bom. Ele declarou que esta era a questão subjacente do movimento da auto-estima. Por não crerem em Jesus Cristo, os humanistas seculares têm o ego como o único centro de interesse do indivíduo. Assim podemos entender por que aqueles que não conhecem a Cristo desejam amar, estimar e satisfazer o ego, pois é a única coisa que têm. E qual é a desculpa da Igreja?
O que há sob toda a retórica referente ao ego é um ataque ao Evangelho de Jesus Cristo, embora não se trate de um ataque frontal com limites de batalha claramente delineados. Ao contrário, na verdade é uma obra engenhosamente subversiva, não de carne e sangue, mas de principados e potestades, de dominadores deste mundo tenebroso, das forças espirituais do mal nas regiões celestes, tal como Paulo explicou na parte final da carta aos Efésios. É triste sabermos que muitos cristãos não estão alertas contra o perigo. É incontável o número dos que estão sendo sutilmente enganados por um outro evangelho – o evangelho do ego.
Percebemos que muita confusão tem envolvido a Igreja professa pelo uso da terminologia popular a respeito do ego. Em um extremo, encontramos pessoas como Robert Schuller que, de acordo com seu livro Self-Esteem: The New Reformation, parece ter abraçado inteiramente a postura humanista secular. Ele abomina o termo pecador e acredita que a pessoa deve desenvolver a sua auto-estima antes que possa conhecer a Jesus. Ele descarta por completo o que realmente conduz o indivíduo para a cruz de Cristo. Por outro lado, há os que, inconscientes das implicações e da confusão que tais palavras acarretam, vêm lançando mão desta terminologia. Adotando e adaptando-se aos conceitos da psicologia humanista, cristãos professos dizem que temos auto-estima, amor-próprio, valor-próprio, etc., por causa daquilo que somos em Cristo, mas a ideologia subjacente vem atrás.
Com o progresso da influência e da popularização da psicologia, a ênfase em Deus foi deslocada para o ego por uma grande parte da igreja professa. De formas muito sutis, o ego vai tomando o primeiro lugar e, assim, a atitude de ser escravo de Cristo é substituída pela de se fazer o que agrada e que seja para sua própria conveniência. O amor aos outros só é praticado se for conveniente.
Com toda esta ênfase no ego, é natural que os cristãos perguntem se é correto amar a si mesmo. Como Jesus responderia? Embora não seja ardilosa como as dos escribas e fariseus, a questão requer uma resposta "sim" ou "não". O "sim" leva facilmente a toda espécie de preocupação consigo mesmo. E o "não" conduz a um possível: "Bem, então devemos nos odiar?" Nem sempre Jesus respondia como esperavam seus ouvintes. Em vez disso, Ele usava a pergunta como oportunidade de lhes ensinar uma verdade. Sua ênfase sempre era o amor de Deus e o nosso amor a Ele e aos outros.
Lingüisticamente, em toda a Bíblia, o termo agapao é sempre dirigido aos outros, nunca a mim mesmo. O conceito de amor-próprio não é o tema do Grande Mandamento, mas apenas um qualificativo. Quando Jesus ordena amar a Deus "de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força" (Mc 12.30), Ele enfatiza a natureza abrangente desse amor agapao (amor-atitude, que vai além da capacidade do homem natural, sendo possível exclusivamente pela graça divina). Se Ele usasse as mesmas palavras para o amor ao próximo, estaria encorajando-nos à idolatria. Contudo, para o grau de intensidade de amor que devemos ao próximo, Ele usou as palavras "como a ti mesmo".
Jesus não nos ordenou a amar a nós mesmos. Ele não disse que havia três mandamentos (amar a Deus, ao próximo e a nós mesmos). Ele apenas afirmou: "Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (Mt 22.40). O amor-próprio já está implícito aqui – ele é um fato – não uma ordem. Nenhum ensino nas Escrituras diz que alguém já não ama a si mesmo. Paulo afirma: "Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja" (Ef 5.29). Os cristãos não são admoestados a amar ou a odiar a si mesmos. Amor-próprio, ódio-próprio (que é simplesmente uma outra forma de amor-próprio ou preocupação consigo mesmo), e auto-depreciação (possivelmente uma desculpa para culpar a Deus por não conceder ao ego maiores vantagens pessoais), são atitudes centradas no eu. Os que se queixam da falta de amor-próprio geralmente estão insatisfeitos com seus sentimentos, habilidades, circunstâncias, etc. Se realmente odiassem a si mesmos, eles estariam alegres por serem miseráveis. Todo ser humano ama a si mesmo.
Em toda a Escritura, e particularmente dentro do contexto de Mateus 22, a ordem é dirigir aos outros todo o amor que o indivíduo tem por si. Não nos é ordenado que amemos a nós mesmos. Já o fazemos naturalmente. O mandamento é que amemos os outros como já amamos a nós mesmos. A história do Bom Samaritano, que segue o mandamento de amar o próximo, não só ilustra quem é o próximo, mas qual é o significado da palavra amor. Nesse contexto, amor significa ir além das conveniências a fim de realizar aquilo que se julga ser melhor para o próximo. A idéia é que devemos procurar o bem dos outros do mesmo modo como procuramos o bem (ou aquilo que podemos até erradamente pensar que seja o melhor) para nós mesmos – exatamente com a mesma naturalidade com que tendemos a cuidar de nosso bem-estar.
Outra passagem paralela com a mesma idéia de amar os outros como já amamos a nós mesmos é Lucas 6.31-35, que começa com as palavras: "Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles." Evidentemente Jesus supunha que Seus ouvintes quisessem ser tratados com justiça, amabilidade e misericórdia. Em outras palavras, queriam ser tratados com amor e não com indiferença ou animosidade. Para esclarecer esta forma de amor em contraste com a dos pecadores, Jesus prosseguiu: "Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam... Amai, porém, os vossos inimigos..."
O amor que Jesus enfatiza é o demonstrado por atos, do tipo altruísta e não o que espera recompensas. Dada a naturalidade com que as pessoas satisfazem suas próprias necessidades e desejos, Jesus desviou-lhes o foco da atenção para além delas mesmas.
Essa espécie de amor pelos outros procede primeiro do amor de Deus, e somente depois de respondermos sinceramente ao amor dEle (de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso entendimento). Não conseguiremos praticá-lo a não ser que O conheçamos através de Seu Filho. As Escrituras dizem: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1 Jo 4.19). Não podemos realmente amar (o amor-ação, agapao) a Deus sem primeiro conhecermos o Seu amor através da graça; e não podemos verdadeiramente amar o próximo como a nós mesmos, sem primeiramente amarmos a Deus. A posição bíblica correta para o cristão não é a de encorajar, justificar ou mesmo estabelecer o amor-próprio, e sim a de dedicar sua vida por amor a Deus e ao próximo como [já ama] a si mesmo. (adaptado de um artigo de PsychoHeresy Update).
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, junho de 1999.
Este blog visa compartilhar algumas reflexões pessoais pertinentes à fé cristã, sua teologia e à interpretação bíblica.
quarta-feira, 17 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Auto-estima Para Cristãos? - Martin e Deidre Bobgan
Crianças e adultos precisam realmente de auto-estima? A baixa auto-estima conduz a sérios problemas na vida? Os pais deveriam se esforçar para desenvolver a auto-estima em seus filhos? A Bíblia incentiva a auto-estima? Muitos cristãos têm suposições sobre este assunto; mas, o que diz a Bíblia? O que dizem as pesquisas?
A gênese da auto-estima
O movimento da auto-estima tem seus fundamentos mais recentes na psicologia clínica, isto é, nas teorias da personalidade elaboradas por Wiliam James, Alfred Adler, Erich Fromm, Abraham Maslow e Carl Rogers, cujos seguidores popularizaram o movimento. Contudo, as raízes do movimento da auto-estima retrocedem aos primórdios da história humana.
Tudo começou no terceiro capítulo de Gênesis. Inicialmente, Adão e Eva tinham consciência de Deus, consciência um do outro, das coisas à sua volta e não de si próprios. A percepção de si mesmos era incidental e secundária na sua focalização em Deus e um no outro. Adão compreendia que Eva era osso dos seus ossos e carne de sua carne (comp. Gn 2.23), mas não estava consciente de si do mesmo modo que seus descendentes seriam. O ego não era problema até a queda.
Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal não trouxe a sabedoria divina. Resultou, sim, em culpa, medo e na separação de Deus. Assim, quando Adão e Eva ouviram que Deus se aproximava, esconderam-se entre as árvores. Mas Deus os viu e perguntou: "Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?" (Gn 3.11).
O ego pecaminoso
Adão e Eva responderam dando-nos o primeiro exemplo de autojustificação. Primeiro Adão culpou Eva e Deus, e então Eva culpou a serpente. O fruto do conhecimento do bem e do mal gerou o ego pecaminoso representado pelo amor-próprio, auto-estima, auto-aceitação, autojustificação, hipocrisia, auto-realização, autodifamação, autopiedade, e outras formas de autofocalização e egocentrismo.
Desse modo, o atual movimento da auto-etc. tem suas raízes no pecado de Adão e Eva. Através dos séculos, a humanidade continua a se deleitar na árvore do conhecimento do bem e do mal, que tem disseminado seus ramos do saber mundano, incluindo as vãs filosofias humanas e, mais recentemente, as filosofias "científicas" e a metafísica da psicologia moderna.
As fórmulas religiosas do valor-próprio, do amor-próprio e da auto-aceitação escorrem do tubo da televisão, fluem pelas ondas do rádio e seduzem através da publicidade. Do berço ao túmulo, os defensores do ego prometem a cura de todos os males da sociedade por meio de doses de auto-estima, valor-próprio, auto-aceitação e amor-próprio. E todo mundo, ou quase todos, repetem o refrão: "Você só precisa amar e aceitar a si próprio como você é. Você precisa se perdoar", e: "Eu só tenho de aceitar-me como sou. Eu mereço. Eu sou uma pessoa digna de amor, de valorização, de perdão."
A resposta cristã para o mundo
Como o cristão deve combater o pensamento do mundo, que exalta o ego e o coloca no centro como a essência da vida? Como o cristão deve ser fiel à ordem de nosso Senhor, de estar no mundo mas não ser do mundo? Ele pode adotar e adaptar-se à filosofia/psicologia popular de sua cultura, ou ele deve manter-se como quem foi separado por Deus e encarar sua cultura à luz da Palavra? Jesus disse: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mt 11.28-30).
Este é um convite para deixarmos o nosso próprio caminho, submetendo-nos a um jugo de humildade e servidão – com ênfase no jugo – num relacionamento de aprendizado e vida. Jesus fez Seu convite ao discipulado com palavras diferentes, mas para o mesmo relacionamento e o mesmo objetivo, quando disse: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á" (Mt 16.24-25).
Nenhum mandamento para amar a si próprio
Jesus não nos ordena que amemos a nós mesmos, mas que amemos a Deus e ao próximo. A Bíblia apresenta uma base para o amor completamente diferente daquilo que a psicologia humanista anuncia. Ao invés de promover o amor-próprio como a base para amarmos os outros, a Bíblia diz que o amor de Deus é a fonte verdadeira. O amor humano é misturado com o amor-próprio e, em última análise, pode estar em busca de seus próprios interesses. Mas o amor de Deus entrega a si mesmo. Portanto, quando Jesus convida Seus discípulos a negarem a si próprios e tomarem sobre si o Seu jugo e a Sua cruz, Ele os conclama a um amor que doa a si mesmo, não a um amor que satisfaz a si mesmo. Até o advento da psicologia humanista e de sua intensa influência na igreja, os cristãos geralmente consideravam a auto-estima como uma atitude pecaminosa.
Apesar da Bíblia não ensinar o amor-próprio, a auto-estima, o valor-próprio ou a auto-realização como virtudes, recursos ou objetivos, um grande número de cristãos de hoje têm sido enganado pelos ensinos pró-ego da psicologia humanista. Ao invés de resistirem à sedução do mundo, eles se submetem à cultura do mundo. Não somente eles não resistem à gigantesca onda do egocentrismo; como estão na crista da onda da auto-estima, da auto-aceitação e do amor-próprio. Na área do ego, dificilmente se pode perceber a diferença entre o cristão e o não-cristão, exceto que o cristão afirma ser Deus a fonte principal de sua auto-estima, auto-aceitação, auto-valorização e amor-próprio.
Através de slogans, bordões e textos bíblicos deturpados, muitos crentes professos seguem a onda existencial da psicologia humanista e estabelecem seu próprio sistema motivacional. Desse modo, qualquer crítica contra os ensinamentos do valor-próprio, amor-próprio e auto-estima é considerada, por isso mesmo, como prova de que se deseja que as pessoas sejam infelizes. Além do mais, qualquer crítica contra o movimento da auto-estima é vista como um perigo para a sociedade, já que a auto-estima é considerada como panacéia para seus males. Então se alguém, na igreja, não apóia completamente a teologia da auto-estima, é acusado de promover uma teologia desprezível.
Se há algo que o mundo e muitos na igreja têm em comum nos dias atuais, é a psicologia da auto-estima. Embora cristãos professos possam discordar em algumas das nuanças da auto-estima, auto-valorização, auto-aceitação, e mesmo em alguns dos pontos mais delicados de suas definições e de como elas são alcançadas, muitos têm reunido forças contra o que acreditam ser um inimigo terrível – a baixa auto-estima. Contudo, mesmo o mundo ainda não consegue justificar o incentivo da alta auto-estima pelos seus próprios métodos de pesquisa.
As pesquisas não apresentam justificativas em favor da auto-estima
Há alguns anos, o legislativo da Califórnia aprovou o projeto de criação da "Força-Tarefa Californiana para Desenvolver a Auto-Estima e a Responsabilidade Social e Pessoal". O legislativo reservou para o projeto 245.000 dólares ao ano durante três anos, num total de 735.000 dólares. O duplo título da Força-Tarefa foi realmente muito pretencioso. Ninguém nunca conseguiu demonstrar que o estímulo à auto-estima está, de algum modo, ligado com a responsabilidade social e pessoal. Nem se provou que todos aqueles que demonstram responsabilidade social e pessoal possuem auto-estima elevada. Na verdade, a auto-estima e a responsabilidade social e pessoal têm relação negativa e não positiva.
A Declaração do Objetivo da Força-Tarefa foi a seguinte:
Procurar determinar se a auto-estima e a responsabilidade social e pessoal são as chaves para descobrir os segredos do desenvolvimento humano sadio, de modo que consigamos atingir as causas e desenvolver soluções eficazes para os principais problemas sociais, fornecendo a cada californiano as mais recentes experiências e práticas quanto à importância da auto-estima e da responsabilidade social e pessoal.(1)
A Força-Tarefa acreditava que apreciar a si mesmo e fortalecer a auto-estima reduziria "dramaticamente os níveis epidêmicos dos problemas sociais que enfrentamos atualmente".(2)
Há uma relação positiva entre a alta ou baixa auto-estima e a responsabilidade social e pessoal?
Com o objetivo de pesquisar esta relação, a Força-Tarefa estadual contratou oito professores da Universidade da Califórnia para examinar a pesquisa sobre a auto-estima e sua relação com as seis áreas seguintes:
1. Crime, violência e reincidência;
2. Abuso de drogas e álcool;
3. Dependência da Previdência Social;
4. Gravidez na adolescência;
5. Abusos sofridos por crianças e esposas;
6. Deficiência infantil no aprendizado escolar.
Sete dos professores pesquisaram as áreas acima e o oitavo resumiu os resultados, que foram publicados num livro intitulado The Social Importance of Self-Esteem (A Importância Social da Auto-Estima).(3) Esta pesquisa confirmou a relação entre a auto-estima e os problemas sociais?
David L. Kirk, colunista do jornal San Francisco Examiner, disse rudemente:
Esse... volume erudito, The Social Importance of Self-Esteem, resume todas as pesquisas sobre o assunto numa ridícula abordagem maçante de cientistas pretensiosos. Economize seus 40 dólares que o livro custa e conclua: Há pouquíssima evidência de que a auto-estima seja a causa de nossos males sociais. (ênfase acrescentada.)
Mesmo tendo procurado uma conexão entre a baixa auto-estima e o comportamento problemático, eles não puderam encontrar uma relação de causa e efeito. (Contudo, estudos mais recentes indicam uma clara relação entre o comportamento violento e a alta auto-estima.) Apesar disso, a fé na auto-estima não morre, e as escolas continuam a trabalhar para elevar a auto-estima.
Pior do que a continuação nos ensinamentos da auto-estima no mundo é a confiança que cristãos professos continuam a depositar nos ensinamentos da autovalorização e do amor a si próprios. Assim, o movimento secular da auto-estima não é um ataque frontal contra a Bíblia com linhas de batalha claramente demarcadas. Ao invés disso, é habilidosamente subversivo, e realmente não é obra de carne e sangue, mas dos principados e potestades, dos dominadores deste mundo tenebroso, das forças espirituais do mal nas regiões celestes, como Paulo diz em Efésios 6.12. Lamentável é que muitos cristãos não estão alertas para os perigos. Muitos mais do que podemos enumerar estão sendo sutilmente enganados por um outro evangelho: o evangelho do ego.
O amor bíblico
Jesus convida os Seus para um relacionamento de amor com Ele e de um para com o outro. A alegria dos Seus deve ser encontrada nEle, não em si mesmos. O amor vem de Seu amor por eles. Assim o amor deles, de um para o outro, não vem do amor-próprio e da auto-estima, tampouco aumenta a auto-estima. A ênfase está na comunhão, na frutificação e na prontidão para ser rejeitado pelo mundo. A identificação do crente está em Jesus ao ponto de sofrer e segui-lO até a cruz. Somente através da semântica forçada, da lógica violentada e da exegese ultrajada alguém pode querer demonstrar que a auto-estima é bíblica ou mesmo parte da tradição ou do ensino da igreja.
O foco do amor na Bíblia é para cima e para fora ao invés de ser para dentro. O amor é tanto uma atitude como uma ação de uma pessoa para com a outra. Embora o amor possa incluir sentimentos e emoções, ele é essencialmente uma ação determinada pela vontade para a glória de Deus e para o bem dos outros. Assim, quando Jesus disse: "Amarás, pois o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força" (Mc 12.30), Ele quis explicar que todo o nosso ser deve estar comprometido para amar e, portanto, agradar a Deus. O amor a Deus é expresso com um coração agradecido e determinado a fazer o que agrada a Ele de acordo com o que está revelado na Bíblia. Não se trata de um tipo de obediência mecânica, mas de um desejo para conformar-se à Sua graciosa vontade e de concordar que Deus é a fonte e o padrão para tudo que é certo e bom.
A segunda ordem é uma extensão ou expressão da primeira: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mc 12.31). João acrescentou detalhes a respeito. Ele descreveu a seqüência do amor. Em contraste com os mestres do amor-próprio, que dizem que as pessoas não podem amar a Deus e aos outros até que amem a si mesmas, João diz que o amor começa em Deus e, então, se estende aos outros: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão" (1 Jo 4.19-21).
Deus nos amou primeiro, o que nos capacita a amá-lO, o que se expressa, então, em amar uns aos outros.
Desde o primeiro fôlego de Adão, os homens foram destinados a viver em relacionamento com Deus, e não como egos autônomos. A Bíblia inteira está apoiada nesse relacionamento, porque após responder ao fariseu, afirmando que o grande mandamento é amar a Deus e o segundo é amar ao próximo como a si mesmo, Jesus acrescentou: "Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas " (Mt 22.40). Jesus veio para nos livrar do ego e para restabelecer esse relacionamento de amor para o qual fomos criados. Durante séculos, foram escritos livros sobre amar a Deus e uns aos outros. Contudo, atualmente, cada vez mais, a igreja está sendo inundada por literatura ensinando-nos como amar-nos melhor, nos estimarmos mais, aceitar-nos como somos e desenvolvermos o nosso próprio valor. (Martin e Deidre Bobgan BDM 12/97 – extraído e/ou adaptado das edições 3-4 e 5-6/96 da PsychoHeresy Awareness Letter - http://www.chamada.com.br).
Notas:
1. California Task Force to Promote Self-Esteem and Personal and Social Responsibility. "1987 Annual Report to the Governor and the Legislature", p.V.
2. Andrew M. Mecca, "Chairman’s Report". Esteem, Vol.2, nº 1, fevereiro de 1988, p.1.
3. Andrew M. Mecca, Neil J. Smelser e John Vasconcellos, eds. The Social Importance of Self-Esteem. Berkeley: University of California Press, 1989.
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, Fevereiro de 1999.
A gênese da auto-estima
O movimento da auto-estima tem seus fundamentos mais recentes na psicologia clínica, isto é, nas teorias da personalidade elaboradas por Wiliam James, Alfred Adler, Erich Fromm, Abraham Maslow e Carl Rogers, cujos seguidores popularizaram o movimento. Contudo, as raízes do movimento da auto-estima retrocedem aos primórdios da história humana.
Tudo começou no terceiro capítulo de Gênesis. Inicialmente, Adão e Eva tinham consciência de Deus, consciência um do outro, das coisas à sua volta e não de si próprios. A percepção de si mesmos era incidental e secundária na sua focalização em Deus e um no outro. Adão compreendia que Eva era osso dos seus ossos e carne de sua carne (comp. Gn 2.23), mas não estava consciente de si do mesmo modo que seus descendentes seriam. O ego não era problema até a queda.
Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal não trouxe a sabedoria divina. Resultou, sim, em culpa, medo e na separação de Deus. Assim, quando Adão e Eva ouviram que Deus se aproximava, esconderam-se entre as árvores. Mas Deus os viu e perguntou: "Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?" (Gn 3.11).
O ego pecaminoso
Adão e Eva responderam dando-nos o primeiro exemplo de autojustificação. Primeiro Adão culpou Eva e Deus, e então Eva culpou a serpente. O fruto do conhecimento do bem e do mal gerou o ego pecaminoso representado pelo amor-próprio, auto-estima, auto-aceitação, autojustificação, hipocrisia, auto-realização, autodifamação, autopiedade, e outras formas de autofocalização e egocentrismo.
Desse modo, o atual movimento da auto-etc. tem suas raízes no pecado de Adão e Eva. Através dos séculos, a humanidade continua a se deleitar na árvore do conhecimento do bem e do mal, que tem disseminado seus ramos do saber mundano, incluindo as vãs filosofias humanas e, mais recentemente, as filosofias "científicas" e a metafísica da psicologia moderna.
As fórmulas religiosas do valor-próprio, do amor-próprio e da auto-aceitação escorrem do tubo da televisão, fluem pelas ondas do rádio e seduzem através da publicidade. Do berço ao túmulo, os defensores do ego prometem a cura de todos os males da sociedade por meio de doses de auto-estima, valor-próprio, auto-aceitação e amor-próprio. E todo mundo, ou quase todos, repetem o refrão: "Você só precisa amar e aceitar a si próprio como você é. Você precisa se perdoar", e: "Eu só tenho de aceitar-me como sou. Eu mereço. Eu sou uma pessoa digna de amor, de valorização, de perdão."
A resposta cristã para o mundo
Como o cristão deve combater o pensamento do mundo, que exalta o ego e o coloca no centro como a essência da vida? Como o cristão deve ser fiel à ordem de nosso Senhor, de estar no mundo mas não ser do mundo? Ele pode adotar e adaptar-se à filosofia/psicologia popular de sua cultura, ou ele deve manter-se como quem foi separado por Deus e encarar sua cultura à luz da Palavra? Jesus disse: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mt 11.28-30).
Este é um convite para deixarmos o nosso próprio caminho, submetendo-nos a um jugo de humildade e servidão – com ênfase no jugo – num relacionamento de aprendizado e vida. Jesus fez Seu convite ao discipulado com palavras diferentes, mas para o mesmo relacionamento e o mesmo objetivo, quando disse: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á" (Mt 16.24-25).
Nenhum mandamento para amar a si próprio
Jesus não nos ordena que amemos a nós mesmos, mas que amemos a Deus e ao próximo. A Bíblia apresenta uma base para o amor completamente diferente daquilo que a psicologia humanista anuncia. Ao invés de promover o amor-próprio como a base para amarmos os outros, a Bíblia diz que o amor de Deus é a fonte verdadeira. O amor humano é misturado com o amor-próprio e, em última análise, pode estar em busca de seus próprios interesses. Mas o amor de Deus entrega a si mesmo. Portanto, quando Jesus convida Seus discípulos a negarem a si próprios e tomarem sobre si o Seu jugo e a Sua cruz, Ele os conclama a um amor que doa a si mesmo, não a um amor que satisfaz a si mesmo. Até o advento da psicologia humanista e de sua intensa influência na igreja, os cristãos geralmente consideravam a auto-estima como uma atitude pecaminosa.
Apesar da Bíblia não ensinar o amor-próprio, a auto-estima, o valor-próprio ou a auto-realização como virtudes, recursos ou objetivos, um grande número de cristãos de hoje têm sido enganado pelos ensinos pró-ego da psicologia humanista. Ao invés de resistirem à sedução do mundo, eles se submetem à cultura do mundo. Não somente eles não resistem à gigantesca onda do egocentrismo; como estão na crista da onda da auto-estima, da auto-aceitação e do amor-próprio. Na área do ego, dificilmente se pode perceber a diferença entre o cristão e o não-cristão, exceto que o cristão afirma ser Deus a fonte principal de sua auto-estima, auto-aceitação, auto-valorização e amor-próprio.
Através de slogans, bordões e textos bíblicos deturpados, muitos crentes professos seguem a onda existencial da psicologia humanista e estabelecem seu próprio sistema motivacional. Desse modo, qualquer crítica contra os ensinamentos do valor-próprio, amor-próprio e auto-estima é considerada, por isso mesmo, como prova de que se deseja que as pessoas sejam infelizes. Além do mais, qualquer crítica contra o movimento da auto-estima é vista como um perigo para a sociedade, já que a auto-estima é considerada como panacéia para seus males. Então se alguém, na igreja, não apóia completamente a teologia da auto-estima, é acusado de promover uma teologia desprezível.
Se há algo que o mundo e muitos na igreja têm em comum nos dias atuais, é a psicologia da auto-estima. Embora cristãos professos possam discordar em algumas das nuanças da auto-estima, auto-valorização, auto-aceitação, e mesmo em alguns dos pontos mais delicados de suas definições e de como elas são alcançadas, muitos têm reunido forças contra o que acreditam ser um inimigo terrível – a baixa auto-estima. Contudo, mesmo o mundo ainda não consegue justificar o incentivo da alta auto-estima pelos seus próprios métodos de pesquisa.
As pesquisas não apresentam justificativas em favor da auto-estima
Há alguns anos, o legislativo da Califórnia aprovou o projeto de criação da "Força-Tarefa Californiana para Desenvolver a Auto-Estima e a Responsabilidade Social e Pessoal". O legislativo reservou para o projeto 245.000 dólares ao ano durante três anos, num total de 735.000 dólares. O duplo título da Força-Tarefa foi realmente muito pretencioso. Ninguém nunca conseguiu demonstrar que o estímulo à auto-estima está, de algum modo, ligado com a responsabilidade social e pessoal. Nem se provou que todos aqueles que demonstram responsabilidade social e pessoal possuem auto-estima elevada. Na verdade, a auto-estima e a responsabilidade social e pessoal têm relação negativa e não positiva.
A Declaração do Objetivo da Força-Tarefa foi a seguinte:
Procurar determinar se a auto-estima e a responsabilidade social e pessoal são as chaves para descobrir os segredos do desenvolvimento humano sadio, de modo que consigamos atingir as causas e desenvolver soluções eficazes para os principais problemas sociais, fornecendo a cada californiano as mais recentes experiências e práticas quanto à importância da auto-estima e da responsabilidade social e pessoal.(1)
A Força-Tarefa acreditava que apreciar a si mesmo e fortalecer a auto-estima reduziria "dramaticamente os níveis epidêmicos dos problemas sociais que enfrentamos atualmente".(2)
Há uma relação positiva entre a alta ou baixa auto-estima e a responsabilidade social e pessoal?
Com o objetivo de pesquisar esta relação, a Força-Tarefa estadual contratou oito professores da Universidade da Califórnia para examinar a pesquisa sobre a auto-estima e sua relação com as seis áreas seguintes:
1. Crime, violência e reincidência;
2. Abuso de drogas e álcool;
3. Dependência da Previdência Social;
4. Gravidez na adolescência;
5. Abusos sofridos por crianças e esposas;
6. Deficiência infantil no aprendizado escolar.
Sete dos professores pesquisaram as áreas acima e o oitavo resumiu os resultados, que foram publicados num livro intitulado The Social Importance of Self-Esteem (A Importância Social da Auto-Estima).(3) Esta pesquisa confirmou a relação entre a auto-estima e os problemas sociais?
David L. Kirk, colunista do jornal San Francisco Examiner, disse rudemente:
Esse... volume erudito, The Social Importance of Self-Esteem, resume todas as pesquisas sobre o assunto numa ridícula abordagem maçante de cientistas pretensiosos. Economize seus 40 dólares que o livro custa e conclua: Há pouquíssima evidência de que a auto-estima seja a causa de nossos males sociais. (ênfase acrescentada.)
Mesmo tendo procurado uma conexão entre a baixa auto-estima e o comportamento problemático, eles não puderam encontrar uma relação de causa e efeito. (Contudo, estudos mais recentes indicam uma clara relação entre o comportamento violento e a alta auto-estima.) Apesar disso, a fé na auto-estima não morre, e as escolas continuam a trabalhar para elevar a auto-estima.
Pior do que a continuação nos ensinamentos da auto-estima no mundo é a confiança que cristãos professos continuam a depositar nos ensinamentos da autovalorização e do amor a si próprios. Assim, o movimento secular da auto-estima não é um ataque frontal contra a Bíblia com linhas de batalha claramente demarcadas. Ao invés disso, é habilidosamente subversivo, e realmente não é obra de carne e sangue, mas dos principados e potestades, dos dominadores deste mundo tenebroso, das forças espirituais do mal nas regiões celestes, como Paulo diz em Efésios 6.12. Lamentável é que muitos cristãos não estão alertas para os perigos. Muitos mais do que podemos enumerar estão sendo sutilmente enganados por um outro evangelho: o evangelho do ego.
O amor bíblico
Jesus convida os Seus para um relacionamento de amor com Ele e de um para com o outro. A alegria dos Seus deve ser encontrada nEle, não em si mesmos. O amor vem de Seu amor por eles. Assim o amor deles, de um para o outro, não vem do amor-próprio e da auto-estima, tampouco aumenta a auto-estima. A ênfase está na comunhão, na frutificação e na prontidão para ser rejeitado pelo mundo. A identificação do crente está em Jesus ao ponto de sofrer e segui-lO até a cruz. Somente através da semântica forçada, da lógica violentada e da exegese ultrajada alguém pode querer demonstrar que a auto-estima é bíblica ou mesmo parte da tradição ou do ensino da igreja.
O foco do amor na Bíblia é para cima e para fora ao invés de ser para dentro. O amor é tanto uma atitude como uma ação de uma pessoa para com a outra. Embora o amor possa incluir sentimentos e emoções, ele é essencialmente uma ação determinada pela vontade para a glória de Deus e para o bem dos outros. Assim, quando Jesus disse: "Amarás, pois o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força" (Mc 12.30), Ele quis explicar que todo o nosso ser deve estar comprometido para amar e, portanto, agradar a Deus. O amor a Deus é expresso com um coração agradecido e determinado a fazer o que agrada a Ele de acordo com o que está revelado na Bíblia. Não se trata de um tipo de obediência mecânica, mas de um desejo para conformar-se à Sua graciosa vontade e de concordar que Deus é a fonte e o padrão para tudo que é certo e bom.
A segunda ordem é uma extensão ou expressão da primeira: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mc 12.31). João acrescentou detalhes a respeito. Ele descreveu a seqüência do amor. Em contraste com os mestres do amor-próprio, que dizem que as pessoas não podem amar a Deus e aos outros até que amem a si mesmas, João diz que o amor começa em Deus e, então, se estende aos outros: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão" (1 Jo 4.19-21).
Deus nos amou primeiro, o que nos capacita a amá-lO, o que se expressa, então, em amar uns aos outros.
Desde o primeiro fôlego de Adão, os homens foram destinados a viver em relacionamento com Deus, e não como egos autônomos. A Bíblia inteira está apoiada nesse relacionamento, porque após responder ao fariseu, afirmando que o grande mandamento é amar a Deus e o segundo é amar ao próximo como a si mesmo, Jesus acrescentou: "Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas " (Mt 22.40). Jesus veio para nos livrar do ego e para restabelecer esse relacionamento de amor para o qual fomos criados. Durante séculos, foram escritos livros sobre amar a Deus e uns aos outros. Contudo, atualmente, cada vez mais, a igreja está sendo inundada por literatura ensinando-nos como amar-nos melhor, nos estimarmos mais, aceitar-nos como somos e desenvolvermos o nosso próprio valor. (Martin e Deidre Bobgan BDM 12/97 – extraído e/ou adaptado das edições 3-4 e 5-6/96 da PsychoHeresy Awareness Letter - http://www.chamada.com.br).
Notas:
1. California Task Force to Promote Self-Esteem and Personal and Social Responsibility. "1987 Annual Report to the Governor and the Legislature", p.V.
2. Andrew M. Mecca, "Chairman’s Report". Esteem, Vol.2, nº 1, fevereiro de 1988, p.1.
3. Andrew M. Mecca, Neil J. Smelser e John Vasconcellos, eds. The Social Importance of Self-Esteem. Berkeley: University of California Press, 1989.
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, Fevereiro de 1999.
quinta-feira, 11 de março de 2010
EXAMINANDO NOSSO ARREPENDIMENTO
Examinando Nosso Arrependimento
Por Thomas Watson
Nascido em 1620, Thomas Watson estudou em Cambridge (Inglaterra). Em 1646, iniciou um pastorado de dezesseis anos em
Londres. Entre suas principais obras, estão o seu famoso Body of Pratical Divinity (Compêndio de Teologia Prática), publicado
postumamente em 1692.
Se alguém diz que se arrependeu, desejo que examine-se a si mesmo, seriamente, por meio dos sete... efeitos do arrependimento
delineados pelo apóstolo em 2 Coríntios 7.11.
1. Cuidado. A palavra grega significa uma diligência intensa ou um esquivar-se atento de todas as tentações ao pecado. O homem
verdadeiramente arrependido foge do pecado como Moisés fugiu da serpente.
2. Defesa. A palavra grega é apologia. O sentido é este: embora tenhamos muito cuidado, podemos cair no pecado devido à força
da tentação. Ora, nesse caso, o crente arrependido não deixa o pecado supurar em sua alma; antes, julga a si mesmo por causa
de seu pecado. Derrama lágrimas perante o Senhor. Clama por misericórdia em nome de Cristo e não O deixa, enquanto não
obtém o seu perdão. Assim, em sua consciência, ele é defendido da culpa e se torna capaz de criar uma apologia para si mesmo
contra Satanás.
3. Indignação. Aquele que se arrepende levanta o seu espírito contra o pecado, assim como o sangue de alguém sobe quando ele
vê um indivíduo a quem odeia mortalmente. A indignação significa ficar importunado no coração por causa do pecado. O penitente
sente-se inquieto consigo mesmo. Davi chamou a si mesmo de “ignorante” e “irracional” (Sl 73.22). Agradamos mais a Deus
quando arrazoamos com nossa alma por conta do pecado.
4. Temor. Um coração sensível é sempre um coração que teme. O penitente sentiu a amargura do pecado. Este vespa o ferrou, e
agora, tendo esperança de que Deus está reconciliado, ele teme se aproximar novamente do pecado. A alma penitente está cheia
de temor. Tem medo de perder o favor de Deus, que é melhor do que a vida, e receia que, por falta de diligência, fique aquém da
salvação. A alma penitente teme que, depois de amolecido o seu coração, as águas do arrependimento sejam congeladas, e ela
seja endurecida no pecado novamente. “Feliz o homem constante no temor de Deus” (Pv 28.14)... Uma pessoa que se arrependeu
teme e não peca; uma pessoa que não tem a graça de Deus peca e não teme.
5. Desejo intenso. Assim como o bom tempero estimula o apetite, assim também as ervas amargas do arrependimento estimulam
o desejo. O que o penitente deseja? Ele deseja mais poder contra o pecado, bem como ser livre deste. É verdade que ele está
livre de Satanás; mas anda como um prisioneiro que escapou da prisão com algemas nas pernas. Ele não pode andar com
liberdade e destreza nos caminhos de Deus. Deseja, portanto, que as algemas do pecado sejam removidas. Ele quer ser livre da
corrupção. Clama nas mesmas palavras de Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Em resumo, ele deseja
estar com Cristo, assim como tudo deseja estar em seu devido lugar.
6. Zelo. Desejo e zelo são colocados lado a lado a fim de mostrar que o verdadeiro desejo se manifesta em esforço zeloso. Oh!
como o crente arrependido se estimula nas coisas pertinentes à salvação! Como se empenha para tomar por esforço o reino de
Deus (Mt 11.12)! O zelo incita a busca pela glória. Ao se deparar com dificuldades, o zelo é encorajado pela oposição e sobrepuja
o perigo. O zelo faz o crente arrependido persistir na tristeza santa mesmo diante de todos os desencorajamentos e oposições. O
zelo desprende o crente de si mesmo e leva-o a buscar a glória de Deus. Paulo, antes de sua conversão, era enfurecido contra os
santos (At 26.11). Depois da conversão, ele foi considerado louco por amor a Cristo: “As muitas letras te fazem delirar!” (At 26.24).
Paulo tinha zelo e não delírio. O zelo causa fervor na vida espiritual, que é como fogo para o sacrifício (Rm 12.11). O zelo é um
estímulo para o dever, assim como o temor é um freio para o pecado.
7. Vindita. Um crente verdadeiramente arrependido persegue os seus pecados com uma malignidade santa. Busca a morte dos
pecados como Sansão queria vingar-se dos filisteus pelos seus dois olhos. O crente arrependido age com seus pecados da
mesma maneira como os judeus agiram com Cristo. Ele lhes dá fel e vinagre para beberem. Crucifica as suas concupiscências (Gl
5.24). Um verdadeiro filho de Deus busca a ruína daqueles pecados que mais desonram a Deus... Com o pecado, Davi
contaminou o seu leito; depois, pelo arrependimento, ele inundou seu leito com lágrimas. Os israelitas pecaram pela idolatria e,
posteriormente, viram como desgraça os seus ídolos: “E terás por contaminados a prata que recobre as imagens esculpidas e o
ouro que reveste as tuas imagens de fundição” (Is 30.22)... As mulheres israelitas que haviam se vestido à moda da época e, por
orgulho, tinham abusado do uso de seus espelhos ofereceram-nos depois, tanto por zelo como por vingança, para o serviço do
tabernáculo de Deus (Êx 38.8). Com o mesmo sentimento, os mágicos... quando se arrependeram, trouxeram seus livros e, por
vindita, queimaram-nos (At 19.19).
Estes são os benditos frutos e resultados do arrependimento. Se os acharmos em nossa alma, chegamos àquele arrependimento
do qual nos arrependeremos (2 Co 7.10).
Extraído de The Doctrine of Repetance, reimpresso por The Banner of Truth Trust.
Editora Fiel http://editorafiel.com.br/artigos_print.php?id=301
1 de 2 12/2/2010 16:00
Traduzido por: Wellington Ferreira
Copyright© Editora FIEL 2009.
Por Thomas Watson
Nascido em 1620, Thomas Watson estudou em Cambridge (Inglaterra). Em 1646, iniciou um pastorado de dezesseis anos em
Londres. Entre suas principais obras, estão o seu famoso Body of Pratical Divinity (Compêndio de Teologia Prática), publicado
postumamente em 1692.
Se alguém diz que se arrependeu, desejo que examine-se a si mesmo, seriamente, por meio dos sete... efeitos do arrependimento
delineados pelo apóstolo em 2 Coríntios 7.11.
1. Cuidado. A palavra grega significa uma diligência intensa ou um esquivar-se atento de todas as tentações ao pecado. O homem
verdadeiramente arrependido foge do pecado como Moisés fugiu da serpente.
2. Defesa. A palavra grega é apologia. O sentido é este: embora tenhamos muito cuidado, podemos cair no pecado devido à força
da tentação. Ora, nesse caso, o crente arrependido não deixa o pecado supurar em sua alma; antes, julga a si mesmo por causa
de seu pecado. Derrama lágrimas perante o Senhor. Clama por misericórdia em nome de Cristo e não O deixa, enquanto não
obtém o seu perdão. Assim, em sua consciência, ele é defendido da culpa e se torna capaz de criar uma apologia para si mesmo
contra Satanás.
3. Indignação. Aquele que se arrepende levanta o seu espírito contra o pecado, assim como o sangue de alguém sobe quando ele
vê um indivíduo a quem odeia mortalmente. A indignação significa ficar importunado no coração por causa do pecado. O penitente
sente-se inquieto consigo mesmo. Davi chamou a si mesmo de “ignorante” e “irracional” (Sl 73.22). Agradamos mais a Deus
quando arrazoamos com nossa alma por conta do pecado.
4. Temor. Um coração sensível é sempre um coração que teme. O penitente sentiu a amargura do pecado. Este vespa o ferrou, e
agora, tendo esperança de que Deus está reconciliado, ele teme se aproximar novamente do pecado. A alma penitente está cheia
de temor. Tem medo de perder o favor de Deus, que é melhor do que a vida, e receia que, por falta de diligência, fique aquém da
salvação. A alma penitente teme que, depois de amolecido o seu coração, as águas do arrependimento sejam congeladas, e ela
seja endurecida no pecado novamente. “Feliz o homem constante no temor de Deus” (Pv 28.14)... Uma pessoa que se arrependeu
teme e não peca; uma pessoa que não tem a graça de Deus peca e não teme.
5. Desejo intenso. Assim como o bom tempero estimula o apetite, assim também as ervas amargas do arrependimento estimulam
o desejo. O que o penitente deseja? Ele deseja mais poder contra o pecado, bem como ser livre deste. É verdade que ele está
livre de Satanás; mas anda como um prisioneiro que escapou da prisão com algemas nas pernas. Ele não pode andar com
liberdade e destreza nos caminhos de Deus. Deseja, portanto, que as algemas do pecado sejam removidas. Ele quer ser livre da
corrupção. Clama nas mesmas palavras de Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Em resumo, ele deseja
estar com Cristo, assim como tudo deseja estar em seu devido lugar.
6. Zelo. Desejo e zelo são colocados lado a lado a fim de mostrar que o verdadeiro desejo se manifesta em esforço zeloso. Oh!
como o crente arrependido se estimula nas coisas pertinentes à salvação! Como se empenha para tomar por esforço o reino de
Deus (Mt 11.12)! O zelo incita a busca pela glória. Ao se deparar com dificuldades, o zelo é encorajado pela oposição e sobrepuja
o perigo. O zelo faz o crente arrependido persistir na tristeza santa mesmo diante de todos os desencorajamentos e oposições. O
zelo desprende o crente de si mesmo e leva-o a buscar a glória de Deus. Paulo, antes de sua conversão, era enfurecido contra os
santos (At 26.11). Depois da conversão, ele foi considerado louco por amor a Cristo: “As muitas letras te fazem delirar!” (At 26.24).
Paulo tinha zelo e não delírio. O zelo causa fervor na vida espiritual, que é como fogo para o sacrifício (Rm 12.11). O zelo é um
estímulo para o dever, assim como o temor é um freio para o pecado.
7. Vindita. Um crente verdadeiramente arrependido persegue os seus pecados com uma malignidade santa. Busca a morte dos
pecados como Sansão queria vingar-se dos filisteus pelos seus dois olhos. O crente arrependido age com seus pecados da
mesma maneira como os judeus agiram com Cristo. Ele lhes dá fel e vinagre para beberem. Crucifica as suas concupiscências (Gl
5.24). Um verdadeiro filho de Deus busca a ruína daqueles pecados que mais desonram a Deus... Com o pecado, Davi
contaminou o seu leito; depois, pelo arrependimento, ele inundou seu leito com lágrimas. Os israelitas pecaram pela idolatria e,
posteriormente, viram como desgraça os seus ídolos: “E terás por contaminados a prata que recobre as imagens esculpidas e o
ouro que reveste as tuas imagens de fundição” (Is 30.22)... As mulheres israelitas que haviam se vestido à moda da época e, por
orgulho, tinham abusado do uso de seus espelhos ofereceram-nos depois, tanto por zelo como por vingança, para o serviço do
tabernáculo de Deus (Êx 38.8). Com o mesmo sentimento, os mágicos... quando se arrependeram, trouxeram seus livros e, por
vindita, queimaram-nos (At 19.19).
Estes são os benditos frutos e resultados do arrependimento. Se os acharmos em nossa alma, chegamos àquele arrependimento
do qual nos arrependeremos (2 Co 7.10).
Extraído de The Doctrine of Repetance, reimpresso por The Banner of Truth Trust.
Editora Fiel http://editorafiel.com.br/artigos_print.php?id=301
1 de 2 12/2/2010 16:00
Traduzido por: Wellington Ferreira
Copyright© Editora FIEL 2009.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Livro: "O amor de Deus derramado em nossos corações"
Amados irmãos e irmãs, foi com alegria e a presença de muitos alunos, ex-alunos, amigos, pastores, membros de minha igreja e da minha família (esposa, filho, mãe), que o livro "O amor de Deus derramado em nossos corações", princípios éticos para a fé cristã, foi lançado. Este livro é publicado pelo Fonte Editorial, sendo o primeiro livro de minha autoria publicado. Caso queiram mais informações sobre o mesmo e como adquiri-lo, é só entrar em contato: airtonwilliams@globo.com Um forte abraço a todos.
A ORIGEM DO OFÍCIO DIACONAL II
Redescobrindo as origens do ofício diaconal
Se Atos 6.1-7 não enfoca a instituição do Diaconato, onde devemos buscá-la? Nesta busca é preciso distinguir duas coisas fundamentais, entre a instituição e a origem.
Quando falamos de Instituição estamos pensando naquele momento em que determinado ofício foi criado, estabelecido no meio da comunidade. Neste sentido é muito difícil nos localizarmos, visto que o Novo Testamento não nos fornece esta resposta.
A única coisa que sabemos é que este ofício já havia assumido proporções eclesiásticas por volta do ano 55 d.C., conforme podemos conferir em Fp 1.1: Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos... Outra passagem que nos atesta isto é 1 Tm 3.8-13. É interessante notar que as instruções dadas por Paulo nesta passagem vem logo depois das instruções dos bispos, o que poderia indicar um relacionamento entrelaçado destas duas funções .
Mas, se por um lado é difícil demarcar o ponto inicial da Instituição diaconal, por outro é fácil perceber sua origem, podendo esta ser rebuscada em modelos veterotestamentários e difundidos pela vida de Jesus no Novo Testamento.
No Antigo Testamento a expressão servo de Yahweh no livro de Isaías prefigura a ação de Cristo como que um serviço prestado a Deus em favor de suas ovelhas desgarradas (Is 53.6). E de fato isto se cumpre na vida de Cristo. No texto de Filipenses, onde Paulo já havia falado do diaconato (1.1), temos o seguinte testemunho:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo (dou/loutornando-se em semelhança de homens; e reconhecido em figura humana; a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.(Fp 2.5-8)
Observe que Jesus é designado como servo, aquele que veio para servir a humanidade. E esta designação é reforçada pelo próprio Jesus quando da ceia com os seus discípulos conforme registrada em Jo 13.1-17.
Mas o que caracterizou as atividades de Jesus como um ministério diaconal? Basicamente o serviço voluntário e integral para com as pessoas. Mt 4.23-25; 9.35-38 e Lc 6.17-19 nos falam das atividades de Jesus que acudiam tanto as enfermidades da alma quanto do corpo.
Tendo ensinado este serviço desprendido por amor às pessoas Jesus insta com seus discípulos para que também o façam. Mt 20.20-28 nos conta uma história peculiar onde a mãe de Tiago e João pede ao Mestre para que no seu Reino seus filhos pudessem assentar-se ao seu lado, um à direita e outro à esquerda. A resposta de Jesus tipifica todo o espírito do seu ministério e que deveria caracterizar o de seus discípulos:
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será o vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.(vv.25-28).
Os discípulos entenderam posteriormente este mandamento do Senhor, somente depois de sua morte e ressurreição, porém sempre que exerciam suas funções viam a si mesmos como diáconos do Senhor (2 Co 11.23, 1 Tm 4.6).
É óbvio que os apóstolos não se viam exercendo nenhum ofício diaconal, mas entediam suas funções como diaconia.
Entretanto, acredito que de todos os escritores neotestamentários Lucas seja aquele que procura suprir-nos de protótipos diaconais que posteriormente vieram a dar a origem ao diaconato. Em algumas passagens do seu evangelho e de Atos ele faz questão de assinalar atividades diaconais. Estas se dividem de duas formas: atividades diaconais prestadas a Cristo e atividades prestadas à Igreja de Cristo.
No Evangelho de Lucas encontramos passagens onde os discípulos do Senhor lhes prestam serviço (diaconia) espontaneamente. Eis algumas passagens para nossa reflexão:
Inclinando-se ele para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou; e logo se levantou passando a servi-los. (A cura da sogra de Pedro, 4.39);
E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta com bálsamo ungiu os meus pés. ( A pecadora que ungiu a Jesus, 7.44-46);
Aconteceu depois disto que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia anunciando o evangelho do reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades...as quais lhe prestavam assistência com os seus bens. (8.1,3);
Marta agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços. Então se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tivesse deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. (10.40).
Estas passagens são importantes para a nossa reflexão porque espelham um estágio bem posterior dos eventos narrados. Quando Lucas nos conta estas histórias a Igreja já estava estabelecida. É provável que a data de escrita seja entre os anos 75-80 d. C. E isto implica em algo fundamental para a nossa discussão: o termo diaconia já era um termo específico nas comunidades cristãs. Portanto, quando Lucas o usa o faz de forma consciente como que procurando apontar-nos em alguma direção. Particularmente, acredito que ele procura levar-nos aos protótipos do diaconato, demonstrando-nos que o mesmo surgiu, em primeiro lugar, como resposta de amor à diaconia de Cristo.
Em Atos as atividades diaconais são vistas naqueles que a fazem para o próximo. Eis alguns textos:
Vendiam as suas propriedades e bens , distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. (2.45);
Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes, e depositavam aos pés dos apóstolos; então se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade. (4.34,35);
Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir as mesas. (6.1,2);
Havia em Jope uma discípula, por nome Tabita, nome este que traduzido quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia...e todas as viúvas o cercaram, e chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas. (9.36,39);
Morava em Cesasréia um homem, de nome Cornélio, centurião da coorte, chamada a italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus. (10.1,2).
A análise destes textos nos leva a algumas conclusões: a) primeira, que as atividades diaconais que no Evangelho é feita para Jesus, agora é feita para os pobres; b) segunda, que esta tarefa se tornou pesada para os apóstolos à medida que a Igreja crescia e que, portanto, precisava ser compartilhada com alguém que fosse responsável pelo serviço, sendo eleitos sete homens; c) terceira, que apesar da diaconia ter sido estruturada em Jerusalém, esta era uma responsabilidade de toda a igreja; d) quarta, que a diaconia era feita com o que havia de melhor e não com as sobras.
Diante disto, podemos dizer que Atos 6 foi a primeira tentativa de se organizar a atividade diaconal da Igreja, não sendo no entanto a origem do diaconato. A origem deste ofício deve ser buscada nestes pequenos serviços, vindo, mais tarde, a ser institucionalizado. Entretanto, vale ressaltar algo muito importante. Vendo estes textos nos parece que a diaconia está associada diretamente com o serviço caritativo sendo este o todo do seu significado. No entanto, se atentarmos em Atos 6.8-15 veremos Estevão, um dos sete anunciando Jesus. Da mesma forma em At 8.4-8 encontramos Filipe proclamando a Cristo, sendo mais tarde chamado de evangelista (21.8).
Observe, então, que a diaconia exercida na Igreja primitiva ia muito além da assistência caritativa, envolvia, também, o serviço a Cristo por meio da proclamação do evangelho.
Isto é confirmado pela Didaqué, um documento produzido pela Igreja primitiva no final do século I d.C., que servia como uma espécie de catecismo para os primeiros cristãos. Neste documento encontramos as seguintes instruções:
Escolham para vocês bispos e diáconos dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados, porque eles também exercem para vocês o ministério dos profetas e dos mestres.
Não os desprezem, porque entre vocês eles têm a mesma dignidade que os profetas e mestres. (Cap. XVI, vv.1,2).
Um último fator a ser considerado no ofício diaconal no Novo Testamento é a responsabilidade daqueles que exerciam a diaconia pelo preparo das reuniões cúlticas e catequéticas, e até mesmo as execuções destas, como podemos depreender de At 16.40; Rm 16.1,2; Fp 4.2,3, e outros. Além disso, é interessante Fp 1.1 e 1 Tm 2.1-13, onde os diáconos vem a seguir dos bispos, demonstrando a íntima relação de atividade entre estes.
Assim, podemos concluir que o ofício diaconal é fruto da organização de diversos ministérios eclesiásticos que com o passar do tempo assumiram caráter oficial na Igreja. Estes ministérios, incluíam desde a assistência caritativa até o ofício cúltico.
Se Atos 6.1-7 não enfoca a instituição do Diaconato, onde devemos buscá-la? Nesta busca é preciso distinguir duas coisas fundamentais, entre a instituição e a origem.
Quando falamos de Instituição estamos pensando naquele momento em que determinado ofício foi criado, estabelecido no meio da comunidade. Neste sentido é muito difícil nos localizarmos, visto que o Novo Testamento não nos fornece esta resposta.
A única coisa que sabemos é que este ofício já havia assumido proporções eclesiásticas por volta do ano 55 d.C., conforme podemos conferir em Fp 1.1: Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos... Outra passagem que nos atesta isto é 1 Tm 3.8-13. É interessante notar que as instruções dadas por Paulo nesta passagem vem logo depois das instruções dos bispos, o que poderia indicar um relacionamento entrelaçado destas duas funções .
Mas, se por um lado é difícil demarcar o ponto inicial da Instituição diaconal, por outro é fácil perceber sua origem, podendo esta ser rebuscada em modelos veterotestamentários e difundidos pela vida de Jesus no Novo Testamento.
No Antigo Testamento a expressão servo de Yahweh no livro de Isaías prefigura a ação de Cristo como que um serviço prestado a Deus em favor de suas ovelhas desgarradas (Is 53.6). E de fato isto se cumpre na vida de Cristo. No texto de Filipenses, onde Paulo já havia falado do diaconato (1.1), temos o seguinte testemunho:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo (dou/loutornando-se em semelhança de homens; e reconhecido em figura humana; a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.(Fp 2.5-8)
Observe que Jesus é designado como servo, aquele que veio para servir a humanidade. E esta designação é reforçada pelo próprio Jesus quando da ceia com os seus discípulos conforme registrada em Jo 13.1-17.
Mas o que caracterizou as atividades de Jesus como um ministério diaconal? Basicamente o serviço voluntário e integral para com as pessoas. Mt 4.23-25; 9.35-38 e Lc 6.17-19 nos falam das atividades de Jesus que acudiam tanto as enfermidades da alma quanto do corpo.
Tendo ensinado este serviço desprendido por amor às pessoas Jesus insta com seus discípulos para que também o façam. Mt 20.20-28 nos conta uma história peculiar onde a mãe de Tiago e João pede ao Mestre para que no seu Reino seus filhos pudessem assentar-se ao seu lado, um à direita e outro à esquerda. A resposta de Jesus tipifica todo o espírito do seu ministério e que deveria caracterizar o de seus discípulos:
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será o vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.(vv.25-28).
Os discípulos entenderam posteriormente este mandamento do Senhor, somente depois de sua morte e ressurreição, porém sempre que exerciam suas funções viam a si mesmos como diáconos do Senhor (2 Co 11.23, 1 Tm 4.6).
É óbvio que os apóstolos não se viam exercendo nenhum ofício diaconal, mas entediam suas funções como diaconia.
Entretanto, acredito que de todos os escritores neotestamentários Lucas seja aquele que procura suprir-nos de protótipos diaconais que posteriormente vieram a dar a origem ao diaconato. Em algumas passagens do seu evangelho e de Atos ele faz questão de assinalar atividades diaconais. Estas se dividem de duas formas: atividades diaconais prestadas a Cristo e atividades prestadas à Igreja de Cristo.
No Evangelho de Lucas encontramos passagens onde os discípulos do Senhor lhes prestam serviço (diaconia) espontaneamente. Eis algumas passagens para nossa reflexão:
Inclinando-se ele para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou; e logo se levantou passando a servi-los. (A cura da sogra de Pedro, 4.39);
E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta com bálsamo ungiu os meus pés. ( A pecadora que ungiu a Jesus, 7.44-46);
Aconteceu depois disto que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia anunciando o evangelho do reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades...as quais lhe prestavam assistência com os seus bens. (8.1,3);
Marta agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços. Então se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tivesse deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. (10.40).
Estas passagens são importantes para a nossa reflexão porque espelham um estágio bem posterior dos eventos narrados. Quando Lucas nos conta estas histórias a Igreja já estava estabelecida. É provável que a data de escrita seja entre os anos 75-80 d. C. E isto implica em algo fundamental para a nossa discussão: o termo diaconia já era um termo específico nas comunidades cristãs. Portanto, quando Lucas o usa o faz de forma consciente como que procurando apontar-nos em alguma direção. Particularmente, acredito que ele procura levar-nos aos protótipos do diaconato, demonstrando-nos que o mesmo surgiu, em primeiro lugar, como resposta de amor à diaconia de Cristo.
Em Atos as atividades diaconais são vistas naqueles que a fazem para o próximo. Eis alguns textos:
Vendiam as suas propriedades e bens , distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. (2.45);
Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes, e depositavam aos pés dos apóstolos; então se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade. (4.34,35);
Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir as mesas. (6.1,2);
Havia em Jope uma discípula, por nome Tabita, nome este que traduzido quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia...e todas as viúvas o cercaram, e chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas. (9.36,39);
Morava em Cesasréia um homem, de nome Cornélio, centurião da coorte, chamada a italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus. (10.1,2).
A análise destes textos nos leva a algumas conclusões: a) primeira, que as atividades diaconais que no Evangelho é feita para Jesus, agora é feita para os pobres; b) segunda, que esta tarefa se tornou pesada para os apóstolos à medida que a Igreja crescia e que, portanto, precisava ser compartilhada com alguém que fosse responsável pelo serviço, sendo eleitos sete homens; c) terceira, que apesar da diaconia ter sido estruturada em Jerusalém, esta era uma responsabilidade de toda a igreja; d) quarta, que a diaconia era feita com o que havia de melhor e não com as sobras.
Diante disto, podemos dizer que Atos 6 foi a primeira tentativa de se organizar a atividade diaconal da Igreja, não sendo no entanto a origem do diaconato. A origem deste ofício deve ser buscada nestes pequenos serviços, vindo, mais tarde, a ser institucionalizado. Entretanto, vale ressaltar algo muito importante. Vendo estes textos nos parece que a diaconia está associada diretamente com o serviço caritativo sendo este o todo do seu significado. No entanto, se atentarmos em Atos 6.8-15 veremos Estevão, um dos sete anunciando Jesus. Da mesma forma em At 8.4-8 encontramos Filipe proclamando a Cristo, sendo mais tarde chamado de evangelista (21.8).
Observe, então, que a diaconia exercida na Igreja primitiva ia muito além da assistência caritativa, envolvia, também, o serviço a Cristo por meio da proclamação do evangelho.
Isto é confirmado pela Didaqué, um documento produzido pela Igreja primitiva no final do século I d.C., que servia como uma espécie de catecismo para os primeiros cristãos. Neste documento encontramos as seguintes instruções:
Escolham para vocês bispos e diáconos dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados, porque eles também exercem para vocês o ministério dos profetas e dos mestres.
Não os desprezem, porque entre vocês eles têm a mesma dignidade que os profetas e mestres. (Cap. XVI, vv.1,2).
Um último fator a ser considerado no ofício diaconal no Novo Testamento é a responsabilidade daqueles que exerciam a diaconia pelo preparo das reuniões cúlticas e catequéticas, e até mesmo as execuções destas, como podemos depreender de At 16.40; Rm 16.1,2; Fp 4.2,3, e outros. Além disso, é interessante Fp 1.1 e 1 Tm 2.1-13, onde os diáconos vem a seguir dos bispos, demonstrando a íntima relação de atividade entre estes.
Assim, podemos concluir que o ofício diaconal é fruto da organização de diversos ministérios eclesiásticos que com o passar do tempo assumiram caráter oficial na Igreja. Estes ministérios, incluíam desde a assistência caritativa até o ofício cúltico.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Benny Hinn, um Falso Profeta
Amados irmãos e irmãs, a paz de Cristo. O apóstolo Paulo nos adverte seriamente que nos últimos dias a igreja seguiria "ensinos de demônios". Dentre tantos que se infiltraram na igreja de Cristo ensinando demonismo travestido de cristianismo está o falso profeta Benny Hinn. Infelizmente, milhares de pessoas têm sido enganadas por este homem maligno que se utiliza das ambições, avarezas ou desespero das pessoas para lhes incutir ensinamentos do inferno, em nome do pragmatismo. Assim, após assistir os vídeos abaixo e achá-los esclarecedores, decidi publicá-los em meu blog. Que o Senhor te ilumine para discernir a verdade. Um forte abraço. Pr. Airton Williams.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
A ORIGEM DO OFÍCIO DIACONAL
Em 1999 fui convidado pela Igreja Presbiteriana do Guará-DF, para proferir as palestras do 1º Simpósio sobre Diaconato. Foi uma experiência muito rica, para mim, estudar este assunto, pois este ofício é muito mal compreendido nas igrejas. Costuma-se ouvir que diácono é uma espécie de zelador da igreja, e neste caso, menosprezam sua importância no corpo de Cristo. Mas há os que supervalorizam, colocando os diáconos na mesma categoria de ofício dos presbíteros/pastores/bispos (termos sinônimos no grego do Novo Testamento). Por causa destes extremos e a necessidade de pontuarmos com clareza a função do ofício diaconal, para o bom andamento do serviço do reino de Deus, decidi postar, por etapas, a palestra que proferi sobre A Origem do Ministério Diaconal. Boa leitura. Pr. Airton Williams
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Quando fui convidado para proferir estas palestras fui surpreendido ao ver entre os tópicos a serem discutidos o da instituição do diaconato. Surpreendido porque desde há muito tempo, na verdade séculos, que esta questão é um ponto pacífico na vida da Igreja.
Por outro lado, fiquei extremamente feliz, pois posso agora rediscutir o assunto tentando propor uma perspectiva diferente na discussão (não que eu seja original, apenas sigo outros exegetas que discordam da leitura tradicional que se tem dado ao assunto). Na verdade acredito que durante todo este tempo cometemos um grande equívoco sobre esta questão. E este equívoco não é daquele tipo indiferente. É minha convicção pessoal que nada tem sido mais prejudicial ao exercício do diaconato do que as bases de sua origem. Prejudicial porque tem limitado ao extremo a ação deste ministério tão importante na vida da Igreja.
Atos dos Apóstolos 6.1-7: um erro de leitura
Provavelmente, desde o século IV, quando do concílio de Neo-Cesaréia (314-325), que o ofício diaconal foi associado à escolha dos sete em At 6. Por ocasião daquela reunião ficou estabelecido que o número de diáconos de uma igreja não poderia exceder a sete, numa relação direta com o texto de Lucas.
A partir de então esta posição passou a fazer parte da tradição da Igreja, sendo aceita até aos dias de hoje sem muito questionamento.
Mesmo no período da Reforma Protestante pouca atenção se deu a isto. Na verdade, os reformadores respaldaram este conceito de origem. Prova disto são as palavras de João Calvino:
Ainda que o nome de diácono tenha um sentido mais amplo, não obstante a Escritura chama especialmente diáconos aqueles que são constituídos pela igreja para distribuir as esmolas e cuidar dos pobres, como seus procuradores. A origem, a instituição e o cargo dos diáconos lhes refere são Lucas nos Atos dos Apóstolos (At 6,3). A causa foi as queixas dos gregos contra os hebreus, porque não eram levadas em conta as viúvas no serviço dos pobres. Os apóstolos, alegando não poderem cumprir por vez com dois ofícios, pedem ao povo que eleja sete homens de boa vida, para que se encarreguem disto.
Eis aqui a missão dos diáconos no tempo dos apóstolos, e como devemos ter-lhes conforme o exemplo da Igreja primitiva (Calvino, João. Institución de la religión cristiana. Vol II, livro 4, capítulo III. Países Baixos: Feliré, 1981. p.843).
Estas palavras de Calvino alimentaram, e continuam alimentando, três grandes equívocos quanto ao ofício diaconal:
primeiro, que a função dos diáconos é somente a de assistir aos pobres em suas necessidades. É verdade que nas linhas anteriores Calvino distingue duas classes de diáconos, a que se presta à administração dos bens destinados aos pobres e a que assiste aos enfermos e demais necessitados. Porém, como se pode observar, a atuação dos diáconos continua limitada aos fins caritativos;
segundo, que Atos 6,3 valida tanto a origem como a instituição e o cargo diaconal, servindo de base, então, para as limitações anteriores;
terceiro, que a missão dos diáconos era entendida assim na Igreja primitiva, sendo, portanto, a base normativa de nossa compreensão.
Talvez você esteja se perguntando, mais por que estas três afirmações são um equívoco? A resposta é simples: porque Atos 6,3 não fala nem ensina nenhuma destas coisas. Na verdade, durante todo este tempo se fez uma leitura errada da razão de ser deste texto lucano. Provavelmente nosso questionamento neste momento seja: mais aonde falhou a leitura?
Acredito que o primeiro problema que ocasionou esta má compreensão texto tenha sido a imposição da nossa ótica sócio-eclesiástica sobre o texto. Este problema tem sido patente de nossa leitura bíblica desde há muito tempo. Nós temos a tendência de lermos a Bíblia a partir de nossa compreensão e conceitos preestabelecidos não permitindo que a mensagem original das Sagradas Escrituras chegue até nós com o mesmo frescor com o qual chegou aos seus leitores originais. Assim sendo, é costume entre nós desrespeitarmos, ou mesmo ignorarmos, os contextos que se impõem no texto tais como cultura, sociologia, eclesiologia e tantos outros que diferem dos nossos. Precisamos entender com urgência que a Bíblia não foi escrita hoje, apesar de sua mensagem permanecer para todo o sempre.
Foi exatamente por causa disto que a origem do diaconato se perdeu dentro da Bíblia sendo estigmatizado como tal um texto isolado de seu Sitz im Leben (ou seja, a situação vivencial motivadora do texto). Como veremos mais a frente, a situação pela qual passava a Igreja de Jerusalém nada tem a ver com o que hoje chamamos de diaconato. No entanto, quando a tradição da Igreja estabeleceu sua estrutura, a definiu, ela esqueceu que seu universo eclesiástico era muito mais amplo do que o universo da Igreja primitiva. Assim, ao invés de ler o texto bíblico a partir do seu ambiente eclesiástico nossa herança reformada impôs a este a sua visão e prática.
Não estou dizendo com isto que os nossos reformadores deturparam o sentido do texto, não. Estou dizendo que eles não tiveram o cuidado, ao lerem o texto, de distinguir entre o seu universo sócio-eclesiástico e o do texto sagrado.
O segundo problema perceptível na leitura de Atos 6 que a nossa tradição enfrentou foi o de possuir um campo semântico muito limitado. Buscando uma base bíblica para respaldar a origem do diaconato os Pais da Igreja, os Reformadores e todos os seus sucessores caíram no erro comum de achar que a presença de uma palavra no texto pudesse garantir a fidelidade das suas interpretações.
Assim foi que, ao lerem o texto de Atos 6 descobriram que ali se falava da eleição de um grupo para servir as mesas. O verbo que aí aparece é DIAKONEO Com isso, logo se pensou estar diante da origem do ofício diaconal.
O problema todo é que o texto não usa um substantivo (o que caracterizaria as pessoas que exercessem a função designada), mas um verbo (que expressa uma ação a ser feita). Em outras palavras, o texto não fala de diáconos, mas de homens que foram escolhidos para suprir um problema que havia surgido na comunidade de Jerusalém.
Outro fator dentro disto que estamos demonstrando é que o uso das palavras diakoneo e diakonia já havia sido feito nos evangelhos, inclusive por Lucas, para designar outras atividades dos discípulos de Jesus (Lc 8.3; 10.40; Mc 1.31; 10.43-45, etc.), e nem por isso temos a apresentação nestes textos de qualquer instituição diaconal.
Pode-se alegar, ainda, que a eleição comunitária e a imposição de mãos encontrada no texto de Atos 6 deixam claro a instituição dos diáconos. Na verdade o que temos aqui são conjecturas muito mal fundamentadas. E isto por duas razões, que me parecem óbvias:
Primeira, a eleição dentro de uma comunidade não significa necessariamente a designação de um ofício, mas de uma função. E esta pode ser permanente ou temporária. O que o texto de Atos 6 deixa claro é que se trata de um problema circunstancial, portanto, temporário, o que descaracterizaria o aspecto de um oficialato; além disso, uma eleição serve para nos demonstrar, também, o caráter representativo de uma comunidade;
segunda, a imposição de mãos não estabelece a origem de um ofício; na verdade, ela apenas representa, ou simboliza, a delegação de autoridade, ou poder, para o exercício de uma determinada atividade; e isto pode ser visto claramente no texto de Lucas em Atos 13.3. Temos aqui a separação de Barnabé e Paulo para a obra missionária; observe que o procedimento da Igreja de Antioquia é o mesmo da Igreja de Jerusalém, inclusive valendo-se da mesma fórmula de designação de autoridade para o exercício da função. Compare os textos de At 6.6 e 13.3:
Atos 6.6:
E os apresentaram ante os apóstolos, e este, orando, lhes impuseram as mãos.
Atos 13.3:
Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram
Nos dois textos, a oração e a imposição de mãos se faz presente. O único elemento novo existente é o jejum em At 13.3. No entanto, não podemos dizer que Barnabé e Paulo estavam recebendo ali um novo ofício. O que demonstra que a imposição de mãos está irremediavelmente ligada à delegação de autoridade para a execução de uma obra. E como já dissemos, esta pode ser permanente ou temporária.
Atos 6.1-7: enfocando o problema
Se Atos 6 não fala da instituição dos diáconos do que fala então? Devemos lembrar que Atos 1-7 forma um bloco literário onde Lucas nos apresenta o estabelecimento da Igreja em Jerusalém e a crescente oposição que esta vinha sofrendo (1-5) e a expansão desta, inclusive, entre os judeus de fala grega (1-7).
E é nesta expansão que Lucas nos conta o segundo problema interno enfrentado pela comunidade de Jerusalém (o primeiro problema foi narrado em At 5.1-11: Ananias e Safira). O evangelho cresceu demais e os judeus helenistas também foram alcançados. Porém, não havia uma boa relação entre os judeus palestinenses e os judeus helenistas por questões de pureza. E este mesmo problema continuou existindo na comunidade cristã.
Em Jerusalém esta crise ficou patente quando propositadamente as viúvas helênicas foram desprezadas na distribuição dos alimentos. Em outras palavras, os judeus palestinenses privilegiaram suas viúvas, praticando uma espécie acepção de pessoas.
Lucas procura nos mostrar que crescimento traz alguns problemas de ordem estruturais e que a Igreja deve estar atenta a fim solucioná-los a fim de que continue a crescer. Assim, os apóstolos sugerem a eleição de sete homens que fossem encarregados de reparar este problema e exercessem uma justa distribuição dos alimentos.
Assim sendo, I. Howard Marshall lembra-nos que
Embora o verbo “servir” provenha da mesma raiz do subs. que em português se traduz por “diácono” , é digno de nota que Lucas não se refira aos Sete como sendo diáconos; a tarefa deles não tinha nome formal (Atos: introdução e comentário. São Paulo (SP): Vida Nova, 1988. p.123).
A fim de concluirmos este breve comentário sobre o Sitz im Leben do texto lucano convém observarmos três dados interessantes:
1. Os Sete deveriam possuir qualificações espirituais, o que nos ensina a necessidade de espiritualidade em tudo que fizermos, mesmo naquilo que nos parece ser insignificante;
2. Os Sete foram escolhidos entre aqueles que padeciam da discriminação, o que nos ensina a necessidade de sermos íntimos da aflição do povo de Deus;
3. O número sete deve ter sido concebido da praxe judaica de nomear juntas de sete homens para deveres específicos , o que simbolizava a perfeição, o que nos ensina a necessidade da eficiência em tudo quanto fizermos.
Diante de tudo o que foi exposto é importante ressaltar duas questões a fim de passarmos à discussão da origem do ofício diaconal:
Acredito que Atos 6.1-7 não fala da instituição diaconal, mas de como a Igreja de Jerusalém lidou com um problema interno de discriminação;
Isto não significa que o movimento diaconal não possua base bíblica quanto a sua origem, antes pelo contrário, possui bastante, mas como ficamos bitolados a um único texto deixamos de ver a beleza de sua origem e sua conseqüente importância para a Igreja do Senhor Jesus Cristo.
Tendo estabelecido que há um erro de interpretação quanto à origem do diaconato, segundo o Novo Testamento, precisamos olhar para origem e fundamento, de fato, deste ofício (na próxima postagem).
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Quando fui convidado para proferir estas palestras fui surpreendido ao ver entre os tópicos a serem discutidos o da instituição do diaconato. Surpreendido porque desde há muito tempo, na verdade séculos, que esta questão é um ponto pacífico na vida da Igreja.
Por outro lado, fiquei extremamente feliz, pois posso agora rediscutir o assunto tentando propor uma perspectiva diferente na discussão (não que eu seja original, apenas sigo outros exegetas que discordam da leitura tradicional que se tem dado ao assunto). Na verdade acredito que durante todo este tempo cometemos um grande equívoco sobre esta questão. E este equívoco não é daquele tipo indiferente. É minha convicção pessoal que nada tem sido mais prejudicial ao exercício do diaconato do que as bases de sua origem. Prejudicial porque tem limitado ao extremo a ação deste ministério tão importante na vida da Igreja.
Atos dos Apóstolos 6.1-7: um erro de leitura
Provavelmente, desde o século IV, quando do concílio de Neo-Cesaréia (314-325), que o ofício diaconal foi associado à escolha dos sete em At 6. Por ocasião daquela reunião ficou estabelecido que o número de diáconos de uma igreja não poderia exceder a sete, numa relação direta com o texto de Lucas.
A partir de então esta posição passou a fazer parte da tradição da Igreja, sendo aceita até aos dias de hoje sem muito questionamento.
Mesmo no período da Reforma Protestante pouca atenção se deu a isto. Na verdade, os reformadores respaldaram este conceito de origem. Prova disto são as palavras de João Calvino:
Ainda que o nome de diácono tenha um sentido mais amplo, não obstante a Escritura chama especialmente diáconos aqueles que são constituídos pela igreja para distribuir as esmolas e cuidar dos pobres, como seus procuradores. A origem, a instituição e o cargo dos diáconos lhes refere são Lucas nos Atos dos Apóstolos (At 6,3). A causa foi as queixas dos gregos contra os hebreus, porque não eram levadas em conta as viúvas no serviço dos pobres. Os apóstolos, alegando não poderem cumprir por vez com dois ofícios, pedem ao povo que eleja sete homens de boa vida, para que se encarreguem disto.
Eis aqui a missão dos diáconos no tempo dos apóstolos, e como devemos ter-lhes conforme o exemplo da Igreja primitiva (Calvino, João. Institución de la religión cristiana. Vol II, livro 4, capítulo III. Países Baixos: Feliré, 1981. p.843).
Estas palavras de Calvino alimentaram, e continuam alimentando, três grandes equívocos quanto ao ofício diaconal:
primeiro, que a função dos diáconos é somente a de assistir aos pobres em suas necessidades. É verdade que nas linhas anteriores Calvino distingue duas classes de diáconos, a que se presta à administração dos bens destinados aos pobres e a que assiste aos enfermos e demais necessitados. Porém, como se pode observar, a atuação dos diáconos continua limitada aos fins caritativos;
segundo, que Atos 6,3 valida tanto a origem como a instituição e o cargo diaconal, servindo de base, então, para as limitações anteriores;
terceiro, que a missão dos diáconos era entendida assim na Igreja primitiva, sendo, portanto, a base normativa de nossa compreensão.
Talvez você esteja se perguntando, mais por que estas três afirmações são um equívoco? A resposta é simples: porque Atos 6,3 não fala nem ensina nenhuma destas coisas. Na verdade, durante todo este tempo se fez uma leitura errada da razão de ser deste texto lucano. Provavelmente nosso questionamento neste momento seja: mais aonde falhou a leitura?
Acredito que o primeiro problema que ocasionou esta má compreensão texto tenha sido a imposição da nossa ótica sócio-eclesiástica sobre o texto. Este problema tem sido patente de nossa leitura bíblica desde há muito tempo. Nós temos a tendência de lermos a Bíblia a partir de nossa compreensão e conceitos preestabelecidos não permitindo que a mensagem original das Sagradas Escrituras chegue até nós com o mesmo frescor com o qual chegou aos seus leitores originais. Assim sendo, é costume entre nós desrespeitarmos, ou mesmo ignorarmos, os contextos que se impõem no texto tais como cultura, sociologia, eclesiologia e tantos outros que diferem dos nossos. Precisamos entender com urgência que a Bíblia não foi escrita hoje, apesar de sua mensagem permanecer para todo o sempre.
Foi exatamente por causa disto que a origem do diaconato se perdeu dentro da Bíblia sendo estigmatizado como tal um texto isolado de seu Sitz im Leben (ou seja, a situação vivencial motivadora do texto). Como veremos mais a frente, a situação pela qual passava a Igreja de Jerusalém nada tem a ver com o que hoje chamamos de diaconato. No entanto, quando a tradição da Igreja estabeleceu sua estrutura, a definiu, ela esqueceu que seu universo eclesiástico era muito mais amplo do que o universo da Igreja primitiva. Assim, ao invés de ler o texto bíblico a partir do seu ambiente eclesiástico nossa herança reformada impôs a este a sua visão e prática.
Não estou dizendo com isto que os nossos reformadores deturparam o sentido do texto, não. Estou dizendo que eles não tiveram o cuidado, ao lerem o texto, de distinguir entre o seu universo sócio-eclesiástico e o do texto sagrado.
O segundo problema perceptível na leitura de Atos 6 que a nossa tradição enfrentou foi o de possuir um campo semântico muito limitado. Buscando uma base bíblica para respaldar a origem do diaconato os Pais da Igreja, os Reformadores e todos os seus sucessores caíram no erro comum de achar que a presença de uma palavra no texto pudesse garantir a fidelidade das suas interpretações.
Assim foi que, ao lerem o texto de Atos 6 descobriram que ali se falava da eleição de um grupo para servir as mesas. O verbo que aí aparece é DIAKONEO Com isso, logo se pensou estar diante da origem do ofício diaconal.
O problema todo é que o texto não usa um substantivo (o que caracterizaria as pessoas que exercessem a função designada), mas um verbo (que expressa uma ação a ser feita). Em outras palavras, o texto não fala de diáconos, mas de homens que foram escolhidos para suprir um problema que havia surgido na comunidade de Jerusalém.
Outro fator dentro disto que estamos demonstrando é que o uso das palavras diakoneo e diakonia já havia sido feito nos evangelhos, inclusive por Lucas, para designar outras atividades dos discípulos de Jesus (Lc 8.3; 10.40; Mc 1.31; 10.43-45, etc.), e nem por isso temos a apresentação nestes textos de qualquer instituição diaconal.
Pode-se alegar, ainda, que a eleição comunitária e a imposição de mãos encontrada no texto de Atos 6 deixam claro a instituição dos diáconos. Na verdade o que temos aqui são conjecturas muito mal fundamentadas. E isto por duas razões, que me parecem óbvias:
Primeira, a eleição dentro de uma comunidade não significa necessariamente a designação de um ofício, mas de uma função. E esta pode ser permanente ou temporária. O que o texto de Atos 6 deixa claro é que se trata de um problema circunstancial, portanto, temporário, o que descaracterizaria o aspecto de um oficialato; além disso, uma eleição serve para nos demonstrar, também, o caráter representativo de uma comunidade;
segunda, a imposição de mãos não estabelece a origem de um ofício; na verdade, ela apenas representa, ou simboliza, a delegação de autoridade, ou poder, para o exercício de uma determinada atividade; e isto pode ser visto claramente no texto de Lucas em Atos 13.3. Temos aqui a separação de Barnabé e Paulo para a obra missionária; observe que o procedimento da Igreja de Antioquia é o mesmo da Igreja de Jerusalém, inclusive valendo-se da mesma fórmula de designação de autoridade para o exercício da função. Compare os textos de At 6.6 e 13.3:
Atos 6.6:
E os apresentaram ante os apóstolos, e este, orando, lhes impuseram as mãos.
Atos 13.3:
Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram
Nos dois textos, a oração e a imposição de mãos se faz presente. O único elemento novo existente é o jejum em At 13.3. No entanto, não podemos dizer que Barnabé e Paulo estavam recebendo ali um novo ofício. O que demonstra que a imposição de mãos está irremediavelmente ligada à delegação de autoridade para a execução de uma obra. E como já dissemos, esta pode ser permanente ou temporária.
Atos 6.1-7: enfocando o problema
Se Atos 6 não fala da instituição dos diáconos do que fala então? Devemos lembrar que Atos 1-7 forma um bloco literário onde Lucas nos apresenta o estabelecimento da Igreja em Jerusalém e a crescente oposição que esta vinha sofrendo (1-5) e a expansão desta, inclusive, entre os judeus de fala grega (1-7).
E é nesta expansão que Lucas nos conta o segundo problema interno enfrentado pela comunidade de Jerusalém (o primeiro problema foi narrado em At 5.1-11: Ananias e Safira). O evangelho cresceu demais e os judeus helenistas também foram alcançados. Porém, não havia uma boa relação entre os judeus palestinenses e os judeus helenistas por questões de pureza. E este mesmo problema continuou existindo na comunidade cristã.
Em Jerusalém esta crise ficou patente quando propositadamente as viúvas helênicas foram desprezadas na distribuição dos alimentos. Em outras palavras, os judeus palestinenses privilegiaram suas viúvas, praticando uma espécie acepção de pessoas.
Lucas procura nos mostrar que crescimento traz alguns problemas de ordem estruturais e que a Igreja deve estar atenta a fim solucioná-los a fim de que continue a crescer. Assim, os apóstolos sugerem a eleição de sete homens que fossem encarregados de reparar este problema e exercessem uma justa distribuição dos alimentos.
Assim sendo, I. Howard Marshall lembra-nos que
Embora o verbo “servir” provenha da mesma raiz do subs. que em português se traduz por “diácono” , é digno de nota que Lucas não se refira aos Sete como sendo diáconos; a tarefa deles não tinha nome formal (Atos: introdução e comentário. São Paulo (SP): Vida Nova, 1988. p.123).
A fim de concluirmos este breve comentário sobre o Sitz im Leben do texto lucano convém observarmos três dados interessantes:
1. Os Sete deveriam possuir qualificações espirituais, o que nos ensina a necessidade de espiritualidade em tudo que fizermos, mesmo naquilo que nos parece ser insignificante;
2. Os Sete foram escolhidos entre aqueles que padeciam da discriminação, o que nos ensina a necessidade de sermos íntimos da aflição do povo de Deus;
3. O número sete deve ter sido concebido da praxe judaica de nomear juntas de sete homens para deveres específicos , o que simbolizava a perfeição, o que nos ensina a necessidade da eficiência em tudo quanto fizermos.
Diante de tudo o que foi exposto é importante ressaltar duas questões a fim de passarmos à discussão da origem do ofício diaconal:
Acredito que Atos 6.1-7 não fala da instituição diaconal, mas de como a Igreja de Jerusalém lidou com um problema interno de discriminação;
Isto não significa que o movimento diaconal não possua base bíblica quanto a sua origem, antes pelo contrário, possui bastante, mas como ficamos bitolados a um único texto deixamos de ver a beleza de sua origem e sua conseqüente importância para a Igreja do Senhor Jesus Cristo.
Tendo estabelecido que há um erro de interpretação quanto à origem do diaconato, segundo o Novo Testamento, precisamos olhar para origem e fundamento, de fato, deste ofício (na próxima postagem).
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